02/01/2000
HORA DE SER FIRME
 
por Fritz Utzeri,
diretor de redação do Jornal do Brasil
  A covarde agressão aos fotógrafos Fernando Bizerra Jr, do JORNAL DO BRASIL, e Sheila Chaves, da revista Veja, por energúmenos da Polícia do Exército, é triste lembrete de que os anos de arbítrio e violência deixaram marcas que o regime democrático tem que apagar com rigor e urgência, que exigem uma firmeza, que , infelizmente, o presidente Fernado Henrique Cardoso não parece disposto a adotar. Enquanto veraneia no Rio, finge ignorar desafios à sua autoridade partidos de setores militares da reserva, antigos responsáveis pelo arbítrio e - o que é grave - apoiados por oficiais da ativa.
  Agora a imprensa é a vítima. Ao documentar a festa, mal preparada, do poder, o fotógrafo Fernando Bizerra Jr. foi agarrado por 15 homens da PE e massacrado a golpes de cassetete, socos e chutes de coturno. Algemado como um delinqüente foi arrastado para uma sala do comando do Forte de Copacabana junto com a fotógrafa, e aí, para manter viva uma infame tradição de covardia, da qual a PE parece orgulhar-se, começou uma sessão de tortura, com os jornalistas apanhando na cara, em meio a insultos da soldadesca selvagem, descontrolada e sem qualquer esboço de comando.
  O povo raramente se engana em sua percepção. A vaia monumental com que os cariocas receberam FH é merecida. Testemunhas relatam que, ao ver a confusão, o presidente deixou a cena contrangido. É um sentimento justo mas insuficiente para alguém que tem poder. Constrangidos ante o presidente estamos nós. Cabe a ele apurar e punir os responsáveis. Ele, se assumisse o seu papel, deveria estar furioso com os desrespeitos à sua autoridade, da mesma forma que, nós, jornalistas, estamos furiosos pela agressão covarde e injustificada ao nosso direito de trabalhar e informar.
  O JB tudo fará, dentro das medidas legais ao seu alcance, para obter reparação, principalmente moral, pela afronta que Fernando Bizerra Jr. sofreu.
 
Editorial da primeira página do Jornal do Brasil,02/01/2000
 
   
  O BUG E A DEMOCRACIA
 
por Mauricio Dias,
editor do Jornal do Brasil
 
O Brasil preparou-se para o "bug do milênio" e deu tudo certo. Fica claro que, quando há determinação firme das autoridades, o país pode ir bem. O mesmo, no entanto, não se pode dizer do elementar exercício da democracia. O episódio da agressão de policiais do Exército aos fotógrafos Fernando Bizerra e Sheila Chaves, na festa de Réveillon do Forte Copacabana, é a comprovação disto. O lugar, aliás, já tem uma tradição de exibição de força desnecessária. Lá, em 31 de março de 1964, um dos coronéis golpistas aproximou-se de um soldado que guarnecia a porta do Forte, o esbofeteou e "tomou" o lugar, sob as luzes e os holofotes da extinta TV-Rio. Um gesto tão patético quanto inútil, porque não se entra para a História pela porta dos fundos.
  Dizem que o governo se preocupou com o palavrório golpista de oficiais da reserva da Aeronáutica que, no dia 28 passado, homenagearam no Clube da Aeronáutica, no Rio, o ex-comandante da arma Werner Bräuer. Somando isto ao episódio selvagem contra os fotógrafos do JB e da revista Veja, arma-se uma equação problemática: a cultura de parte dos oficiais das Forças Armadas, originada na ditadura militar, está em rota de colisão com a democracia. Donde se conclui que, se o Brasil moderno foi aprovado no combate ao "bug do milênio", o Brasil arcaico foi reprovado, mais uma vez, no teste democrático. É assim que começamos o ano 2000.
 
Página 15 do Caderno Cidade do Jornal do Brasil, 02/01/2000
 

TAPAS E CHUTES
Depoimento de Fernando Bizerra Jr, fotógrafo
 
"Eu estava fotografando a queda da parede da tenda por causa do vento, quando a arquiteta responsável pediu a um major à paisana que retirasse os fotógrafos. Os soldados nos cercaram e não nos deixaram passar para o lado em que estava o resto da imprensa. Por causa disso, um dos fotógrafos que estava comigo começou a discutir com o major, que colocou o dedo em sua cara. Eu fiz esta foto e o tal major disse que eu não estava autorizado a fotografar.
Os soldados partiram para cima de mim e caí no chão imobilizado, no pescoço, pelo joelho de um deles. Ao mesmo tempo, outros PEs me acossaram com chutes. Depois de uns minutos com a cabeça virada para o chão e protegendo a máquina, para que eles não a apanhassem, me levantaram, deram-me uma gravata e me levaram para uma escada. Nunca vou esquecê-la, era escura e não sabia para onde me levavam. Até chegar ao alojamento, eles foram me dando tapas nas costas e gritando nos meus ouvidos que eu era um filho da puta, que eu ia apanhar muito e morrer. Eles em ameaçavam e mandavam eu calar a boca.
No alojamento, achei que a coisa poderia ficar pior. A tropa de choque entrou no quarto com a gente, me jogaram no chão e pisaram na minha cabeça e nas costelas. Outros soldados chegaram, trazendo a fotógrafa. Eles então pararam de me chutar, porque tinha uma testemunha, e consegui sentar. Mas um soldado, atrás, começou a dizer que ainda não tinha dado um Feliz Ano Novo para a mãe dele e me deu um tapa na cara que me derrubou. A fotógrafa também foi agredida. Graças a Deus, o Luiz Alberto Bittencourt testemunhou a cena e interveio, nos tirando de lá."
Página 15 do Caderno Cidade do Jornal do Brasil, 02/01/2000

 
REPROVAÇÃO UNÂNIME E PEDIDOS DE PUNIÇÃO
 
"O fotógrafo estava credenciado. A violência foi uma desautorização da própria credencial que concederam. A truculência está aí. Quanto mais chamam a si o aumento de poder, mais diminuem os direitos e as liberdades civis." Denise Frossard, juíza

"É intolerável. É mais um atentado à imprensa, assim como a Lei da Mordaça, que está para ser votada. Parece que querem um retrocesso." Antônio Carlos Biscaia, deputado federal e ex-procurador de Justiça do RJ

"O fotógrafo tem que registrar queixa, para que haja punição exemplar não só aos agressores, mas aos mandantes, já que os soldados não partiriam para a violência se não tivessem respaldo de um superior." Miro Teixeira, deputado federal (PDT-RJ)

"Fatos lamentáveis como estes remetem ao período da ditadura. O mínimo que o presidente e as outras autoridades que estavam com ele deveriam fazer é pedir desculpas publicamente." Cecília Coimbra, presidente do grupo Tortura Nunca Mais

"Provavelmente o comandante desses homens ainda não sabe que a ditadura acabou faz tempo. Isto mostra que o despreparo da segurança é absoluto." Técio Lins e Silva, advogado criminalista e ex-secretário estadual de Justiça

"É preciso acabar com esta espécie de licença que o Estado tem para agredir os cidadãos. O presidente declarou que um de seus desejos para o ano 2000 é ver o fim da impunidade. Espero que ele determine rigorosa punição." Reginaldo de Castro, presidente da OAB

"Um legado maldito dos tempos da ditadura. Trata-se de um espasmo autoritário do subúrbio do autoritarismo. Os culpados não devem ficar impunes." Marcelo Cerqueira, advogado constitucionalista

"É lamentável, porque o Rio está em plena campanha por uma polícia melhor e este exemplo do Exército não serve a ninguém. Seria bom algum pronunciamento sobre isso." Zeca Borges, superintendente Associação Rio Contra o Crime

"O fato é incompatível com o governo democrático de Fernando Henrique." Gilberto Velho, antropólogo
 

 
OAB CONDENA AGRESSÃO DE JORNALISTAS DURANTE FESTA PARA PRESIDENTE NO RIO
Regina Terraz, Rosa Costa e Renato Andrade, de Brasília,
publicado no Estado de São Paulo On line
 
Nota da presidência da entidade classifica incidente de "covarde e revoltante

" - O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Reginaldo Castro, condenou ontem a agressão de jornalistas praticadas por soldados da Polícia do Exército na festa de réveillon, no Forte de Copacabana, no Rio, de que participou o presidente Fernando Henrique Cardoso. Castro classificou o fato como "lamentável, covarde e revoltante", em nota distribuída ontem.

Pouco antes do início da queima de fogos na praia de Copacabana, ventos fortes e a chuva provocaram a queda de parte da estrutura do galpão da festa organizada para o presidente. O fato foi registrado pelos fotógrafos que estavam no local. Irritados, os soldados do Exército, que respondiam pela segurança do evento, começaram a agredir os jornalistas. Um dos soldados apontou uma arma para o fotógrafo Ed Ferreira, do Estado. A repórter Rosa Costa, também do Estado, foi agredida por um dos militares. O fotógrafo José Fernando Bezerra, do Jornal do Brasil, foi quem mais saiu ferido.

"No mesmo dia em que o presidente da República revela que seu grande desejo para o ano 2000 é o fim da impunidade, ocorre ao seu lado a lamentável, covarde e revoltante agressão a um repórter fotográfico que apenas procurava exercer com profissionalismo seu trabalho", observa Castro, na nota.

Segundo ele, Fernando Henrique Cardoso deve punir os soldados envolvidos no incidente. "O presidente da República poderá dar conseqüência pratica ao seu desejo determinando a rigorosa punição dos autores dessa violência." No Rio, contudo, nenhuma autoridade prometeu apurar o incidente. Na área militar, também niguém quis manifestar-se sobre caso.

Conflito - Além de ter sido espancado por soldados diante de toda a imprensa e de alguns convidados, o fotógrafo José Fernando Bezerra foi levado pelos policiais do Exército até um de seus dormitórios no forte, onde, segundo contou, continuou sendo surrado. "Um deles (soldados) me batia reclamando de estar trabalhando", contou o fotógrafo.
Bezerra foi ontem até o Instituto Médico Legal para fazer exame de corpo de delito. Por causa dos pontapés que levou, o fotógrafo ficou com o corpo marcado por diversos hematomas.

Desorganização - Preparada pela prefeitura do Rio para ser o maior acontecimento da virada do ano na cidade, o réveillon no Forte de Copacabana acabou transformando-se num fiasco. Os organizadores do evento pecaram em quesitos básicos: discriminação de convidados, desorganização e falta de segurança.

A segurança em relação ao presidente era totalmente precária. "Quem entrava de carro, podia até levar uma bomba que ninguém incomodava", constatou o senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Quem passava direto, com pose de autoridade, tinha passe livre; quem se identificava para entrar no "galpão presidencial" era barrado.

Pouco à vontade, Fernando Henrique não teve sequer um minuto de privacidade. Depois de ver a queima de fogos, ele voltou ao salão. Enquanto participava de uma roda tumultuada de pessoas dentro da festa, foi pego de surpresa pela falta de luz, por causa da falha nos geradores. Afastado do grupo por seus seguranças, o presidente sentou numa das mesas com a família para ceiar. Mesmo assim, não teve sossego. Foi interrompido muitas vezes por convidados que queriam cumprimentá-lo, tirar fotos e pedir autógrafos. Logo depois do jantar, por volta de 1h50 da madrugada de sábado, ele deixou a festa debaixo de guarda-chuva, partindo de helicóptero com a primeira-dama Ruth Cardoso. Ele continua hospedado no Rio, na residência no bairro de Gávea Pequena, e deve retornar a Brasília amanhã à tarde.

 
FH PEDE PUNIÇÃO POR AGRESSÃO A FOTÓGRAFO
Por Aydano André Motta e José Augusto Gayoso,
jornal O Globo, 02/01/2000
O presidente Fernando Henrique defendeu a punição dos responsáveis pela agressão ao repórter fotográfico Fernando Bizerra Jr, do "Jornal do Brasil", por soldados da Polícia do Exército, que aconteceu por volta das 22h, no Forte de Copacabana. O tumulto aconteceu antes da chegada do presidente, mas ele não se furtou a dar sua opinião.

- Não fui informado, mas se agrediram devem ser punidos - comentou Fernando Henrique, mantendo, porém, sua postura otimista. - Vamos falar de coisas positivas, coisas boas, para frente.

O governador Anthony Garotinho, que chegou à festa momentos após o fotógrafo ter sido imobilizado, espancado e ter seu equipamento destruído por 20 homens da PE, usou a agressão como argumento para condenar a presença do Exército nas ruas. - Fui criticado ao me posicionar contra o Exército nas ruas para combater o tráfico. Ele é treinado para atacar. Se aconteceu isso com um jornalista, imaginem como seria com o povo - sustentou ele.

O prefeito Luiz Paulo Conde, que foi aos militares tratar da liberação do fotógrafo, detido numa sala do forte, disse ter pedido esclarecimentos sobre o que chamou de "cenas lamentáveis" e pediu desculpas "em nome do Rio" ao jornalista. Os militares procurados para comentar o fato não quiseram falar. O presidente da OAB, Reginaldo de Castro, condenou a agressão ontem, em nota oficial.