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Praga
e um pouco da Bohêmia"
Não me canso de nossa luz tropical, brisas, tantas gentes e tantas cores.
Mas como é bom outras plagas além-mar, outras gentes e outras cores!
Exercícios novos para o olhar, que, sob cinzento inverno europeu, opta
pelo p&b.
A viagem em si, especialíssima, pois há saudade do "filhoamigo", residente
na República Tcheca. Garimpar cenas estrangeiras é compartilhar momentos/poesias,
inquietações, descobertas. Não me desespero. Saio à caça como posso.
Sei que a síntese de tudo está em meus olhos, em minhas mãos. Quase
um turista, me esforço para um registro não-convencional. Também não
ousei, sei disso.
Mas viva o humano, os movimentos, sombras! De repente a cena muda: uma
velhinha de bengala ou um casal apaixonado na apaixonante Praga. Ansioso
pelo abraço ao filho na República Tcheca, me segurei e resolvi visitar
Veneza com escala em Milão. De tão rápida, Milão me rendeu pouquíssimas
imagens, mesmo assim de dentro da "Stazione Garibaldi". Embarquei no
trem, aliás, no sonho de conhecer Veneza, cidade única. Fotografar Veneza
com chuva e sem cair no clichê, uma ginástica.
De Veneza tomei rumo para Praga com escala em Viena. Estava só na estação.
Tenho um tripézinho, daqueles usados nas lojas para fixarem as máquinas
nas vitrines (ele já me ajudou muito!) e me auto-retratei em despedida
automática de Veneza.
O trem noturno cortou a azul paisagem austríaca com seus alpes congelados.
Era noite de lua cheia. Tudo para um confortável cochilo na cabine de
segunda classe. Mas um incidente me despertou: pela minha aparência
árabe, policiais da imigração austríaca me abordaram. Desconfiaram do
meu passaporte brasileiro. Achavam que era falso. Chamaram mais dois
policiais. Reviraram o passaporte, mostrei o meu RG, falei de samba,
do Pelé, carnaval...
Queria dizer-lhes que eu sou "baiano cabra-da-peste" mesmo, brasileiríssimo,
mas acho que em inglês não deve existir este termo nordestino. Na boa
me liberaram. Não consegui dormir mais, mas a lua cheia estava arrasando.
Nem pensei na onda xenófoba que grassa em toda a Europa (na volta, em
Amsterdã, fiquei retido por uma hora, também pelo mesmo motivo). Fiquei
algumas horas na estação de Viena esperando o próximo trem para Praga.
Um pouco constrangido, não tirei a máquina da bolsa. Perdi algumas fotos
na estação, mas fotografar é estado de espírito altíssimo. Reservei
fôlego para Praga, minha próxima parada.
Realmente uma "cidade mágica", como é chamada. E põe magia nisso, pois
com a originalíssima cerveja e mulheres lindíssimas, resta-nos mesmo
é fotografar e respirar a atmosfera poética e alegre da belíssima capital
da República Tcheca. De história milenar, Praga teve papel importantíssimo
na vida da nação e da Europa.
A cidade viveu o seu apogeu no Séc. XIV, durante o reinado de Carlos
IV, que fundou a 1ª Universidade da Europa Central e Oriental (1348).
Depois da Cortina de Ferro, Praga volta a ser o que sempre foi: o centro
da Europa. Com uma arquitetura eclética e preservada, distingue-se nos
estilos romano, gótico, renascentista, barroco e rococó, conseguindo
conciliar muito bem o antigo e o novo, já que é um importante um centro
de cultura/educacação/comércio da Europa.
Quantos temas em abundâncias! Dois me fascinaram: velhinhos com cachorros
e pessoas lendo. Quantos arcos, torres e portais! Quanta Art-Deco! Quanta
Art-Nouveau! Quantas composições, flagras e paixões! E a Ponte Carlos
(Karlúv Most) sobre o Rio Moldava (Vltava)? Fundada em 1357, tem 30
estátuas e mais um conjunto de estátuas de santos da famosa escultura
barroca. Quanto charme nesta ponte, onde não se cansa de passear, sempre
ao som da boa música, seja ela jazz ou clássica, tocada por músicos
de rua em troca de alguns trocados!
Diz a lenda que a ponte nunca cairá, pois em sua argamassa foram incorporados
ovos e vinho. Torres, palácios, igrejas, castelos. Castelo? Processo?
Metamorfose? Visito a casa onde Kafka morou, mas mantenho distância
da onda extremamente comercial do uso da imagem do escritor. Virou ícone,
clichê. Estranha sensação andar a noite pelas vielas de Praga com Kafka
na cabeça...
Penso em fazer fotos absurdas, viscerais. Mas foi só um pensamento.
Volto o meu olhar para as ruas, onde capto sempre alguém andando sutilmente,
como se quisesse sair de cena. Praga inesgotável, merece retorno sempre.
Visito também outras cidades da região da Bohêmia. Volary, Prahatice
e Krumlov. E dá-lhe cerveja e foto! A cidade de "Plzen" emprestou seu
nome para batizar um dos processos de fabricação deste líquido precioso,
conhecido aqui no Brasil como cerveja "Pilsen".
A cerveja é outro atrativo local e o povo tcheco é o maior consumidor
per capta desta bebida no mundo. Da paz ando atrás. Daí uma bela caminhada
até o Parque Nacional de Sumava. Foram 8 Km com o meu filho-guia. Cedinho,
o Rio Moldava (Vltava), o mesmo que banha Praga, ainda estava com gelo
em sua superfície, tanto frio. Formado predominantemente pela vegetação
conífera, o Parque guarda surpresas belíssimas. Não consigo esqueçer
o Parque Sumava, não pela sua natureza exuberante, mas pela triste e
dolorosa surpresa que tivemos em nossa caminhada, ao depararmos, às
margens do rio, três "bunkers" da época da segunda guerra.
Extremamente reforçado com concreto e ferro, tais esconderijos ficavam
camuflados como se fossem pequenos morros. Hoje todos estão catalogados.
Fazem parte da história. Entrei em um deles. Vi sistema de ventilação.
Senti o aperto (2x2). Vi fantasmas. Senti os horrores... Foram 18 dias
de mochila e poucas horas de sono. Foram 18 dias de alegria e muita
história para contar, mas deixo as fotos com suas mágicas palavras.
Com este ensaio traduzo a Velha Europa que descobri e senti. Viva a
fotografia!
Esta escrita tão democrática, tão medicinal. (Viagem realizada entre
28.01 a 15.02.2001)
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auto
retrato
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Walter
Ney é fotógrafo amador
e vive em Londrina/Pr
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