Manipulação de imagem desqualifica jornalismo sério
Por Flávio Rodrigues
 

As matérias de primeira página da imprensa do mundo inteiro dessa sexta feira 12 de março não poderiam deixar de se reportar se não a cobertura do triste episódio ocorrido em Madri, quando terroristas detonaram bombas no metropolitano da capital, matando 199 pessoas e ferindo outras 1500. Fato triste, motivo de preocupação em todo o mundo, e que exige um cuidado especial na produção da notícia. Embora se espere zelo e cuidado no mister jornalístico, dois jornais brasileiros, o Jornal do Brasil e o Diário de São Paulo, escaparam da seriedade quando publicaram uma fotografia sobre o atentado, imagem de autoria de Pablo Torres Guerrero da agência Reuters, e a manipularam digitalmente excluindo um pedaço de carne humana, imagina-se para não chocar seus leitores. É a reedição de Stalin, que "deletava" seus desafetos políticos das fotografias.

Segundo declaração do editor executivo e responsável pelo fechamento da primeira página, do Jornal do Brasil, Marcos Barros Pinto, " a foto era indiscutivelmente a melhor e suficientemente chocante. "Por isso pedi ao Departamento de Imagem eliminar o pedaço do corpo, pois este fragmento não diminuía nem acrescentava em nada a foto".

O jornal Diário de São Paulo pretexta de forma semelhante, segundo apurou o site http://www.brimagens.com.br: O diretor de redação do Diário de São Paulo, Paulo Moreira Leite, enviou-nos e-mail, confundindo a reportagem da BR com um leitor do jornal. “Embora em situações raríssimas, considero aceitável poupar o leitor de imagens fortes, traumatizantes, que podiam incomodar pessoas mais sensíveis. O Diário é um jornal familiar, lido por jovens e mesmo por crianças que, como você sabe, prestam muito mais atenção às fotos do que aos textos. Nossa cobertura do atentado foi rigorosa, crítica. (…) Acredite, da mesma forma que você telefonou para nos criticar –e sempre defenderei seu direito de fazê-lo–, outros leitores ligaram para agradecer. Existem órgãos que não poupam o leitor de nenhum tipo de imagem – e até mostram suicídios, por exemplo. No Diário, evitamos esse tipo de notícia, por suas conseqüências. Telefone sempre que achar necessário, ou nos escreva.”

Ora, cabe uma reflexão sobre o assunto.

Na medida que os editores de dois jornais sérios deliberam "poupar" seus leitores da crudeza de uma imagem que fora exibida em todos os quadrantes do planeta através da televisão e da mídia impressa, correm o risco os dois jornais, de ver instalada a suspeita em situações futuras, de que elas, as matérias, com imagens ou não, não correspondam à integridade do fato ocorrido. Esse sentido de castidade é intolerável e anacrônico ao mesmo tempo. Leitores de jornal se conquistam com rigor absoluto da informação, choque ela ou não. Assumir antecipadamente uma postura censora a partir da crença que determinada matéria irá chocar seus leitores é, a priori, decretar a falência da integridade do jornalismo sério.

Veja a foto original e como os dois jornais a publicaram

 

 
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