ENTRE O JORNALISMO E A CLANDESTINIDADE, ONDE FICOU A CIDADANIA?
Por Marcelo Gatti
 



Se o jornalista Tim Lopes estivesse a serviço de um jornalismo sério, certamente ele ainda estaria vivo e nós, leitores, mais bem informados. Repórter não é polícia e reportagem investigativa em nada se assemelha à missões de agentes secretos.
Uma matéria séria dispensa imagens bombásticas. Coletar informações não implica em grampear telefones, empregar câmeras secretas, entre outras atividades. Com um trabalho a médio prazo e uma coleta de dados eficaz, pertinente e bem concebida, uma série de entrevistas com traficantes, policiais, autoridades poderia resultar numa matéria mais explicativa e menos sensacionalista.
Todo profissional deve se identificar, obter o consentimento daquele que será fotografado e/ou filmado qualquer que seja a situação. Com algum tempo de trabalho o repórter pode obter informações valiosas de um traficante e até mesmo fotografá-lo com o seu consentimento.
Em resumo, um jornalismo inteligente dispensa mortes inúteis. A REDE GLOBO DE TELEVISÃO quer sensacionalismo e colocou um profissional na linha de tiro e ele - Tim Lopes - ganhou o seu. Lamento pela morte do Tim Lopes e acuso a REDE GLOBO DE TELEVISÃO de ser criminosa por colocar deliberadamente um profissional, seu funcionário, em situação de clandestinidade e com risco de vida para que ela ganhasse alguns pontos no IBOPE. Isso não é jornalismo. Lembra-nos, pelo contrário, das arenas romanas - nas quais o público se deleitava com feras e pobres coitados expostos como boi de piranha.

Marcelo Gatti é arqueólogo, fotógrafo e vive no Rio de Janeiro
mpgatti.rlk@terra.com.br