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São Paulo fecha portas à fotografia Por Paulo Cesar Rocha |
| No começo do ano passado, o MIS-Museu da Imagem e do Som de São Paulo abriu inscrições para o seu 1º programa de fotografia, convocando os fotógrafos a apresentarem seus portfolios para seleção. Os trabalhos selecionados entrariam no calendário de exposições do museu durante o ano de 2000. A resposta ao chamado foi grande, receberam mais de 400 portfolios, foram selecionados 20 trabalhos. Para minha felicidade, eu, que há menos de um ano começara a me dedicar a fotografia, estava entre os selecionados. Foi como passar num disputado vestibular para uma faculdade de renome. | |||||||||||
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O ano foi passando e o pessoal do MIS me dizia que ainda não tinham uma data definida para a realização das exposições. Como fui me envolvendo em outras exposições, fui dando tempo ao MIS. Apesar de me incomodar com esta indefinição, deixei a coisa rolar, pois não queria dar uma de chato insistente, e, além do mais, eu teria tempo para produzir novas imagens, para quando finalmente chegasse minha vez. No começo deste ano, já com um expressivo número de fotos inéditas, voltei a ligar para o museu. Mais uma vez, me disseram que não havia nada definido. Minha paciência começou a encurtar, quis saber o que estava faltando para que eles definissem por fim uma data. Como sempre, faltou clareza na resposta, me disseram que estavam com problemas de orçamento, de agenda... Fiquei de ligar meses depois. |
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Na sexta
feira, dia 30 de março, resolvi aparecer por lá, pessoalmente, para saber
o que eu já pressentia. Fui recebido por Paulo Angerami, responsável pelo
departamento de fotografia do museu, que elogiou o meu portfolio. Agradeci
e disse a ele que estava ali para saber do programa de exposições. Ele
veio com um papo de pois é... não sei se você sabe, mas a gente tá passando
por um momento complicado aqui no museu...problemas com orçamento...e...bem,
o concurso foi cancelado. Como se eu já não esperasse, disse: Puxa, que
decepção! Quis saber das razões e dos porquês. Ele mais uma vez voltou
a falar do problema de orçamento. Procurei manter meus questionamentos
num tom de civilidade, voltei a insistir:
- Mas, Paulo, no regulamento de inscrição estava claro que o museu não arcaria com nenhum custo de montagem, que estes ficariam a cargo dos expositores... |
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- Sim
é verdade, mas você deve entender que nem todos têm, como você, condições
de bancar esses custos... Disse-lhe então que, apesar de achar que seria
um bom incentivo se o museu bancasse parte dos custos, não contava com
isto. Nem esperava nenhuma atitude paternalista. Quando assinei o regulamento,
estava concordando com as regras. Eu também não tinha condições nenhuma.
Pela fotografia, minha conta vive no vermelho, mas, para expor no MIS,
eu faria sacrifícios. Perguntei-lhe se não havia a possibilidade de fazer
um chamado aos selecionados e se estudar uma alternativa ao cancelamento,
mesmo que fosse fazendo uma coletiva. Disse a ele que o cancelamento não
seria legal nem para os selecionados, nem para o museu, nem para os quatrocentos
e tantos que enviaram os portfolios, nem para a fotografia.
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Ele disse
que lamentava, mas que isso não seria possível, que a equipe que havia
organizado a seleção havia mudado, que ele estava estudando uma possibilidade
de fazer uma nova seleção de trabalhos, em outros moldes, mas que não
tinha previsão nenhuma. Eu perguntei então se os trabalhos que já haviam
sido selecionados já estariam automaticamente dentro desta proposta. Ele
me disse que não, que ele pensava em fazer uma nova seleção, mas não tinha
nada definido... Neste instante eu o interrompi e coloquei o exemplo do
vestibular: Imagine um estudante que se dedica a passar no vestibular
para entrar na faculdade dos seus sonhos e que consegue o feito. Imagine
a frustração desse estudante se todo o esforço dele é anulado com o cancelamento
do resultado, com a mudança das regras pré-estabelecidas.
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Feita
a comparação, voltei ao caso do museu, que numa atitude louvável havia
aberto suas portas e oferecido espaço para os "novos talentos" da fotografia,
colocando claramente essa intenção no regulamento do programa ("Nosso
objetivo principal é difundir e incentivar a produção fotográfica, com
ênfase na qualificação técnica, estimulando a criatividade, a originalidade
e identificando tendências."), mas que lamentavelmente em seguida ao convite,
pede a todos que se retirem e fecha as portas. Foi neste instante que
o senhor Paulo Angerami, já sem argumentos e querendo pôr fim aos meus
questionamentos, decide apelar para a intimidação: Quem tinha que expor,
já expôs (fiquei sabendo depois, que chegaram a fazer 2 exposições coletivas,
envolvendo 8 dos selecionados, incluindo ele próprio, que depois veio
a ser contratado pelo museu). Quem disse que você foi selecionado? Fiquei
perplexo: Como assim?! Não estou entendo o que você quer dizer, é claro
que eu fui selecionado. Você tem algum comprovante disso? É evidente que
não, pois vocês não deram isso a ninguém, mas eu fui comunicado, até recebi
os parabéns de vocês pela seleção...Já indignado disse que, mais uma vez,
ele não estava sendo claro, e para dizer a verdade, ele estava agindo
como um canalha.
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| Fui logo pegando o meu portfolio que estava sobre a mesa, decidido a sair dali. Nessa hora ele mudou de tom, pediu que eu o desculpasse, mas é que eu estava sendo muito insistente, que lamentava por tudo, que gostaria de ver o que eu estava produzindo e que a casa estava aberta para mim. Eu disse que lamentava, mas ele e o museu tinham acabado de fechar a porta na minha cara, que os selecionados mereciam justificativas plausíveis ao cancelamento e, no mínimo, por uma questão de respeito, um pedido formal de desculpas. Mais uma vez, ele pediu desculpas e disse que a sugestão era boa e que iria pensar no assunto. Eu o desculpei, mas disse que, para o museu, talvez fosse tarde para um pedido de desculpas. | |||||||||||
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Antes
de sair do museu, fui ver o que estava em cartaz. O que vi foi um deprimente
retrato do descaso, exposições com prazos de finalização vencidos, que
deveriam ter sido substituídas há muito tempo, uma nítida mostra do abandono.
O absurdo maior estava numa exposição de fotografia chamada "Os incluídos
digitais" sobre projeto social da Microsoft, que busca democratizar o
acesso à informática nas populações carentes. Detalhe: NENHUMA das fotos
tinha crédito do autor. Pensei comigo ao sair: Exclusão total do fotógrafo
e da fotografia, que triste imagem para o museu.
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Paulo
Cesar Rocha é fotógrafo amador
e vive em São Paulo |
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