Discriminação com fotógrafo
por Eduardo Aigner

 

Photosynthesis projeta uma discussão sobre o incidente ocorrido com o fotógrafo gaucho Eduardo Aigner e uma funcionária da Camara de Vereadores de Porto Alegre, por ocasião da inscrição em um concurso de fotografias. Novamente um fotógrafo é discriminado e maltratado, sendo expulso de um lugar público.

 
 

Abaixo o relato de Aigner. Dê também sua opinião sobre o assunto.

 




VERGONHA

Quarta feira, 30 de junho de 1999, 14:00. Após longo e exaustivo trabalho dentro do meu laboratório fotográfico, e após diversas tentativas de imprimir corretamente meu currículo, identificação, envelopes, pseudônimo, etc, e de embalar corretamente o material me dirijo a Câmera de Vereadores da cidade de Porto Alegre objetivando inscrever três imagens (em anexo) no concurso fotográfico SIOMA BREITMANN organizado pela entidade. Quando lá chego e entrego os dois envelopes (fotografias+identificação/currículo) para a funcionária da casa ela faz menção de abri-los, segue-se o diálogo:
(Eduardo Aigner:) Vc não poderia deixá-los como estão?

(funcionária não identificada:) Não, eles devem ser adequadas as normas do regulamento, que exige envelopes padrão.

(EA:) Foi bastante difícil fazer estes envelopes, prefiro que fiquem como estão.

(FNI:) Posso deixar assim, mas vc será desclassificado.

(EA:) Ok então, posso ver o regulamento?

(FNI abre os envelopes e aponta para o mural:) Alí!

(EA vê um xerox de edital publicado em jornais:) O regulamento não foi divulgado, eu inclusive tomei conhecimento dele através de um jornal de bairro, que continha a errônea afirmação de que eram exclusivamente cópias 18x24 (foi o que fiz).

(FNI já ficando alterada:) Foi divulgado sim, faz mais de um mês. as inscrições estão abertas há um mês. Problema teu se não sabia.

(EA:) Ok.

(FNI vendo que há meu pseudônimo colado no verso das fotos:) Não pode ter identificação nas fotos, veja... tenho que tirar.

(EA:) Não dá, vai rasgar...

(FNI:) Então vc será desclassificado.

(EA pondera, e resolve aceitar:) Muito bem , deixe que eu tiro. Mas esse regulamento está todo errado, já participei de diversos concursos, inclusive como jurado, e esses procedimentos estão errados. (alguém aparece com o regulamento, xerox, o texto é de origem jurídica, divido em capítulos, artigos, parágrafos, caput, etc. assinado por meia duzia de vereadores)

(FNI pega uma das minhas fotos e mostra pra mim:) Não pode ter nada escrito nas fotos.

(EA:) Vc poderia tirar os dedos da imagem? Mancha.

(FNI larga a foto sobre a mesa, bastante brava:) Vc não precisa se inscrever. Não vou fazer sua inscrição.

(EA arrancando o pseudônimo do verso das fotos:) Vou tirar, tem uma borracha? (sempre anoto dados técnicos no verso). Isso é um absurdo, qual será a comissão de julgamento? (outra funcionária não identificada responde:) Alguém da ARI, alguém da ARFOC e um representante da mesa...(?mesa diretora da Câmara?) (EA) Ahhh.

(FNI por algum motivo perde a compostura:) VC NÃO PODE PARTICIPAR, SAI DA SALA, SAIA DA SALA SENÃO EU CHAMO A SEGURANÇA.

(EA) Estou tirando, vou me inscrever, deu muito trabalho fazer essas fotos.

(FNI grita muito, aparecem diversos curiosos na sala que antes estava vazia) SAIA DA SALA VOU CHAMAR A SEGURANÇA, SAIA AGORA, SAIA. (as pessoas todas ficam se olhando sem entender o que acontecia, a colega se cala, ninguém diz nada)

(EA não entende, mas procura ficar calmo:) Vc não me conhece, vai se arrepender, vou me inscrever. (pergunto a sua colega se FNI está brincando)

(FNI não resiste e sai da sala, ainda aos berros:) VOU CHAMAR OS SEGURANÇAS, SAI JÁ DAQUI... (repete esta frase diversas vezes) (FNI volta com dois seguranças bem velhinhos, gentis, que tb não estão entendendo nada:) TIREM ESSE MENINO DAQUI.
(EA agora fica indignado e clama por democracia:) NÃO SAIO, QUERO FAZER MINHA INSCRIÇÃO, VCS NÃO PODEM ME TIRAR DAQUI, É A CASA DO POVO, É UMA DEMOCRACIA, QUEM VC PENSA QUE É?

(FNI:) LEVEM ELE PRA RUA, ATÉ A PORTA, SAIA JÁ.

(EA pega suas fotos e deixa o currículo e identificação sobre a mesa:) AQUI TEM MEU CURRÍCULO, VAI VER QUE NÃO SOU NENHUM VAGABUNDO PARA SER JOGADO PORTA AFORA, EXIGO RESPEITO, NÃO PODEM FAZER ISSO COMIGO, MERDA DE DEMOCRACIA. VC VAI SE ARREPENDER. (saio encarando a infeliz funcionária pública nos olhos, ela faz o mesmo e murmura qualquer coisa. sou acompanhado por um segurança até a porta, ele pede desculpas mas não pode me dizer o nome da FNI, não é problema dele, "estou cumprindo ordens..." e ainda me agradece por eu ter saído sem maiores dificuldades) O diálogo acima é verdadeiro e fiel na medida do possível. O fato deu-se nas dependências da Câmara de Vereadores na desorganizada sala da Assessoria de Imprensa. Ao que pude entender a pessoa que me expulsou de lá é a coordenadora do concurso e funcionária da casa. Impossível entender a atitude da funcionária de uma casa que se diz democrática e que muitas vezes é considera "a casa do povo". Fui expulso de lá sem maiores explicações em uma atitude brutal e impensada, apenas pq questionei partes de um regulamento que de fato está mal formulado e sequer foi apresentado aos participantes. Qualquer pessoa que já tenha participado de um concurso nesses moldes sabe que a obra deve ser identificada no verso com um pseudônimo, e que este deve estar afixado no lado externo de um envelope contendo a identificação real do concorrente. Fácil, pratico e justo. Porém a burocrática organização interna exige que cada fotografia seja identificada com um número, colado com durex no verso. A fotografia, uma vez lá, será tão manipulada que será difícil reconhecê-la após o julgamento, no entanto é vedado o uso de molduras ou paspatú, ordens da casa... As pessoas que estão lá, pagas com dinheiro público, deveriam tomar cuidado ao tratar do trabalho de terceiros, minhas fotos estão com digitais, estariam assim as vistas dos jurados se fosse possível a minha inscrição. Quem me conhece sabe como trato de assuntos de apresentação de trabalhos... O concurso foi instituído como uma homenagem ao fotógrafo ucraniano Sioma Breitmann, que morou e trabalhou a maior parte de sua vida em Porto Alegre. Tenho certeza de que ele merece muito mais do que um concurso vagabundo. Sempre achei, e peco nesse sentido pois estava quase participando, que esses concursos de fotografia são um meio barato de conseguir boas imagens. proporcionando um ar de bonzinho para quem os institui. Há ainda uma grande confusão entre o público no que se refere a valorização de uma fotografia como obra do intelecto, criação pessoal, e este concurso não é tratado dessa maneira, basta ver a atitude da funcionária que desprezando minhas fotos me expulsou da sala não sem antes mostrar o quanto ignorante pode ser um sistema. Desprezo a violência a que fui submetido. Tenho pena da infeliz funcionária, que tentando cumprir sua burocrática função me insultou verbalmente, não é uma pessoa qualificada para tratar de assuntos culturais, deveria estar no zoologico domando rinocerontes, entenderiam-se muito bem. Gostaria de no futuro ver mais proffisionalismo no que se refere a organização de eventos dessa natureza, por certo não é atributo de uma "casa do povo". Talvez pudessem me contratar para organizar o próximo, tenho certeza que faria bem melhor. Meu telefone é (051) 339 6480... A título de curiosidade disponibilizo aqui as três fotografias que pretendia inscrever no concurso, lembrando que tratava-se de um prêmio de R$ 1.500,00 exclusivamente para fotos p&b. Tratam-se de fotografias de Porto Alegre feitas em 1999 com uma câmera Hasselblad, as cópias são em papel Ilford MGX FB 18x24cm e Ilford Warmtone, tonalizadas com selênio e viradas por sulfuração.
Meu currículo está disponível no endereço http://members.xoom.com/eaigner/anonimos_1.htm .
Eduardo Aigner

Dirija um e-mail ao Presidente da Camara de Vereadores de Porto Alegre, protestando e pedindo providências.

 
  
 

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