OFERTA DO DIA: A FOTOGRAFIA
por Marcia Okida

Quantas vezes já não recebemos propostas do tipo: "Tá interessado em fazer um 'freela' tirando umas fotos? Mas olha, não vai dar para pagar nada pelo serviço, em compensação você terá seu nome creditado e conta para seu portfólio, currículo etc. Que tal ,é um bom negócio!" Ou ouvimos alguém fazer a seguinte proposta: "Olha tem um jornal que está precisando de umas fotos você poderia ir lá tirá-las de graça ou com um precinho bem baixo. Isso vai contar para o seu currículo, vale a pena, vai lá."


Já presenciei muitas e sempre me questiono: será que realmente isso vale e pena? É correto? Ético? Quando alguém se submete a esse tipo de "prestação de serviços" abaixando o preço de sua mão-de-obra, ou pior, fazendo de graça está, na verdade, estragando o mercado de trabalho existente para sua profissão. Pode-se até ter um trabalho publicado e isso contar em seu currículo mas, até que ponto isso é válido se, mais tarde, essa mesma pessoa (que fez de graça e já não necessita mais correr atrás de um currículo), for oferecer seus serviços profissionalmente e corretamente cobrados e escutar coisas do tipo: "nossa isso é muito, da outra vez foi bem mais barato" ou "se você fez de graça antes porque cobrar tanto agora?" Ou pior, ser a vítima de um trabalho anteriormente mal cobrado, ou nem cobrado até, escutando a indignação de um contratante qualquer: "mas, tudo isso! Fulano de tal em um outro trabalho que precisei nem cobrou nada!"


A valorização de um profissional e do resultado de seu trabalho só vai ocorrer realmente quando ele mesmo reconhecer que não pode fazer do fruto dessa sua mão-de-obra especializada um grande "saldão de preços baixos", um "quem dá mais" ou melhor menos. O que o mercado de trabalho oferece, pricipalmente em áreas como fotografia, artes, design, ilustração etc, tem relação direta com o modo com que o profissional se posiciona dentro dele. Com o modo como cobra e apresenta seu trabalho.


Um fotógrafo, ou qualquer profissional que trabalhe como "freela", deve saber que o preço que coloca no que produz vai influir diretamente na qualidade da oferta e reconhecimento existente para sua profissão. O trabalho mal cobrado (ou nem cobrado) repercute em um mercado profissional que vai taxar por baixo o valor e até a qualidade dessa produção profissional. A situação piora quando dentro de algumas escolas, faculdades, universidades, cursos profissionalizantes etc, existe um incentivo a essa postura com a "desculpa" de que a pessoa está iniciando no mercado de trabalho. Lógico que existem algumas instituições que valorizam esses estudantes incentivando e auxiliando-os em como cobrar por seus serviços no momento em que entram para o mercado de trabalho.


Para isso existem tabelas de custos profissionais feitas por sindicatos ou qualquer tipo de entidades de classe. Mas se nem isso for possível conseguir, sempre existem bons profissionais que podem servir de referência quando existe dúvida em relação a quanto cobrar. O valor do produto gerado por qualquer profissional deveria ser seguido, usado e principalmente respeitado. Seja ele fruto de um trabalho de um fotógrafo ou designer que, como eu, muitas vezes já escutei a proposta: "já que você sabe fazer um desenhinho no computador faz um pra mim aí de graça vai". Propostas desse tipo deveriam não existir e somente assim, sem elas ou ignorando sua existência, é possível cobrar das pessoas, da midia, do mercado de trabalho de um modo geral, respeito, ética e seriedade com nossa profissão.


Marcia Okida é designer e professora
e vive em Santos (SP)
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