Quando Alceu entrou na loja de materiais pra comprar mais um rolinho de slides, viu o cartaz de folha sulfite colado no vidro:

"SAÍDA FOTOGRÁFICA PARA O MORRO DO BOI. DOMINGO, 10h. OBJETIVO: DAR CONTINUIDADE A 3ª OFICINA DE DESCONDICIONAMENTO DO OLHAR PROMOVIDA PELA ESCOLA DE FOTOGRAFIA 'NESGA DE LUZ'"


Desconfiado, levantou uma sombrancelha e abaixou outra, pensativo:

"Descondicionamento do olhar, hum?"


Acabou indo porque conhecia o "instrutor" e blá blá blá. E em qualquer área é bom estar bem relacionado… O papo de sempre. Foi, mesmo porque, um dia acertaria a mão num desses passeios e aprenderia alguma coisa.

Alceu conferiu o equipo antes de sair de casa: Corpo e Normal, Meia-tele e tele. 3 rolos de slide.

Ainda no embarque, Alceu olhava pela janela do ônibus a parafernália do pessoal que não tinha subido: um sem número de tripés (até um manfrotto pesadíssimo de estúdio), coleções de filtros coloridos, manuais (em português, claro) uma lente que lembrava um tubo de drops tantos eram os filtros rosqueados nela (mais a tampa, claro) e livrinhos de bolso com várias dicas, tipo: "coloque pessoas em suas fotos".

No mesmo instante, na porta do ônibus, o instrutor pegava o recibo de cada um e distribuía as camisetas com o logo da escola de fotografia.

E o gordo: (sempre tem um gordo)

- Eu pedi uma camiseta GG. Tem uma GG?

Este gordo já estava com um colete enorme 'vazado' nas costas, de tela, novinho. Aqueles coletes cheios de bolsos que prendem em tudo dentro de um estúdio. Imaginem no morro...

O ônibus parte e Alceu escutou, vindo lá dos bancos de trás:

- Olha aqui esta foto do meu banheiro. Fiz de baixo, em 'contraplonguê', com a 16 mm. Peguei tudo. E estava só a 20 cm do vaso.

'Contra o q mesmo'?

Alceu imaginou o tal o vaso...

E as moçoilas, entre si:

- Ai, deixa eu ver a sua…É igual a minha?

- Olha: esta em comprei ontem mesmo.

- E a sua, é automática?

- Ai, ai, ai me empresta este UV, a-go-ra.

Já os rapazes eram mais técnicos, e pareciam ser sérios enquanto viam os portfólios uns dos outros:

- Bem... este trabalho eu fiz para a…

- É … Sim… Sim … Aqui eu mesclei Bauhaus com a tendência neoconcretista …

- Claro… Claro… Claro… Tive que usar um conceito pós Hippie aqui, porque o cliente queria uma coisa super clean, nada 'over'…

- No caso da Hassel, eu prefiro antes testar o clima com outra máquina, pra descontrair a modelo. Sabe como, né?

Depois, o instrutor solta a primeira piada pra tentar descontrair.

- Conhecem a mais nova do fotógrafo? Ainda não foi revelada.

Ninguém riu.

O instrutor era bem intencionado. Mesmo. Era um cara batuta. Fez o pessoal se apresentar e tentou criar um clima "todo mundo é amigo". Não deu muito certo. O que você espera de uma galera que não se conhece e sai fotografar para descondicionar o olhar.

Aliás, você leitor, sabe como se descondiciona um olhar?

Alceu ficou quieto. Arrepiado. Estava realmente puto com a situação. Constrangido, mexeu os olhos para baixo e para direita. Queria não acreditar naquilo. Inerte e espantado, que nem flagrante de paparazzi a 1 / 4000, suou frio.

Estaria Alceu, o jovem aprendiz e candidato a fotógrafo, de novo no meio dos gritalhões dos velhos passeios fotográficos? Nada teria mudado?

-"Abre uuuuum ponto…", "Feeeeeeecha dois…", "Joga em bulb pra borrar…"

Quem se borrava era Alceu… Estava sim no meio dos gritalhões.

Desesperado, puxou da mala a AE-1 e a cinqüentona f:1.4, e sussurrou para a lente como se fossem cúmplices entre si:

- Calma. Não fique nervosa. Não embaça agora. Desta vez vai ser só a gente. Eu e você. No máximo o tripé. Ninguém vai ver o que nós dois veremos. Não vou deixar que fiquem te pegando e dizendo clara ou escura. Você não é nem cerveja nem chopp. Eu gosto de você assim. Seja qual for sua abertura. Prefiro você àquelas telescópicas. Eu também não quero aquele monte de gente lá, se empilhando onde estivermos. Ninguém vai roubar nossos ângulos. Desta vez não. Juro que não.

Alceu não tinha com quem falar. Ninguém o entenderia. O constrangimento e o senso de inferioridade de Alceu era tamanho que ficou calado a viagem toda. Até quase vergonha teve.

Chegando ao local, as barracas (É, barracas!) foram armadas em círculo. Já podia imaginar tudo: à noite, explosão de flashes em 'flagrantes' em volta da fogueira. Raul Seixas e Pink Floyd na viola…

Calma, dessa vez poderia ser diferente. Mas não foi.

Naquele dia, não fotografaram nada. Viram uma projeção de slides que só deu "Regra dos terços" e "f: 5.6" "pra garantir".

Até que ouviu a frase fatal - achou que nunca iria ouvir isso nesses passeios:

- Vai ter diploma depois do "orquixope"?

Era demais. E se perguntou sinceramente, pela primeira vez na vida, o que fazia ali.

Ele ainda não sabia direito o que era fotografia, mas sabia que boa fotografia era muuuuuuuiiiiiiito mais do que aquilo.

Alceu sabia uma única regra: estourar nas baixas, revelar nas altas. Não sabia pra que servia, mas sabia a maldita regra. Tinha ouvido também falar da regra dos terços. Terço ele precisaria depois…

A noite foi como imaginara.

Dia seguinte, depois de horas andando na base do morro e procurando enxergar algo, foi dar o solitário clique da grande foto quando sentiu alguém cutucar em seu ombro para lhe pedir emprestado o polarizador e o cross screen. Era um cara com chapéu do Indiana Jones, de colete e sem camisa por baixo.

- Vão se f***

Acordou-se de supetão, fazendo o movimento toda catapulta:

- "LAST CALL, from:Rio to:Paris"

Alceu embarcava naquela manhã. Pra ver e estudar uma melhor fotografia. E sozinho. Tudo não tinha passado de um pesadelo. Graças a UCSFP (União Contra as Saídas Fotográficas Picaretas)

 

 

Esta é uma obra de ficção e como tal está protegida pelas leis que lhe fazem menção. Qualquer semelhança com a vida real (nomes, lugares, fatos) terá sido mera coincidência.

Rodrigo Bellé, autor deste texto, é jornalista e fotógrafo. Faz algo para levar e para que levem a fotografia a sério.

Paulo Cesar Rocha, o PCR, é cartunista e fotógrafo.

 
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