HERÓIS OU ABUTRES?
por Mariana Varzea

A banalidade x o armortecimento

Este breve artigo surgiu do debate "Heróis ou Abutres?" que tomou conta da lista Photosynthesis durante uma semana, onde se discutia os limites éticos e estéticos do fotojornalismo atual e sua incrível capacidade de registrar a miséria humana em formas cada vez mais agudas. Considerando que esta discussão tem mil faces, ressalto que a que vou abordar aqui diz respeito à maneira como venho pensando o mundo e, por este motivo, ela é uma visão com certeza parcial do assunto, devendo gerar uma série de "não concordos" clorofilas, que nos fazem manter o Photosynthesis nas alturas...


Meu ponto de vista é parte do princípio que o jornalismo atual televisivo e parte considerável do impresso, em sua ânsia de chamar atenção da audiência, vem cada vez mais noticiando os fatos de maneira banal e frívola, onde a principal preocupação é ampliar a quantidade de leitores e não de melhorar a qualidade da leitura dos mesmos e aprofundar a sua capacidade de julgar o mundo. Este formato tem diversas causas e uma delas é ser conseqüência do amortecimento do nosso olhar que anda cada vez mais apático e desinteressado, para instiga-lo vem se produzindo a banalização do mal em reportagens ilustradas com imagens mais do que contundentes da loucura humana.


A banalidade do mal é entendida aqui como o fez Hannah Arendt em sua cobertura do julgamento de Eichmann, a quem ela atribuiu uma feição de bobo da história, por ter o comandante nazista dito que não sentia, nem nunca tinha sentido culpa por ter torturado e matado milhares de judeus, porque este era o seu papel enquanto soldado e não cabia-lhe discutir eticamente este papel, mas executá-lo bem. O que penso é que esta inconsistência da maldade em função do cumprimento de metas ou técnicas vem permeando todos os fazeres humanos - lembrem-se dos cientistas que fizeram a primeira bomba nuclear, quando cobrados em sua responsabilidade pelo que haviam criado, eles se justificaram dizendo que estavam pesquisando os limites de sua ciência e que jamais esperavam criar tão monstruoso instrumento do nosso fim, não teriam eles mesmo espírito do profissionais que registram, através do foto-jornalismo, de "maneira imparcial" os horrores da guerra e da miséria como uma espécie de meta-imagem, não importando muito o que está sendo retratado, o quão descomesurada são estas imagens? Sem desconsiderar a ousadia e o valor do trabalho prestado por este profissionais, mas tendo como horizonte desta discussão o artigo trazido pelo André Arruda em nossa lista, não estaria o mundo da imagem à jato contribuindo para a banalização do mal ?


O que penso é que este tipo de cobertura é uma das facetas do fotojornalismo, é o lado B de uma mesma moeda, cujo lado A é a amortização do olhar, fruto do mundo do marketing, televisivo, internautico, virtual, que gera uma espécie de complacência diante dos fatos, e certamente um empalidecimento do espírito, que não sente, ou não se escandaliza, ou não se erotiza diante de um sem números de imagens voláteis que passam pelos nossos olhos a todo instante.


Para refletirmos sobre a banalização da imagem/fotografia no mundo contemporâneo é necessário compreender um pouco da sua história como representação das coisas e dos sentimentos do homem. A imagem nasceu sabendo esperar, isto é, a imagem nasceu símbolo, alegoria das coisas imortais. Ela era uma espécie de tempo templum, carregado de sentido e veio perdendo este status conforme foi deixando de revelar, para simplesmente registrar. Abro aqui um parêntesis para relembrar a minha pergunta a vocês sobre o que é a fotografia e reiterar que em todo o debate conseqüente a esta pergunta, uma idéia me pareceu comum a todos : da fotografia ser um registro de um momento visto como interessante , que quanto menos subjetivo e mais objetivamente fiel àquele momento ( expressar a luz, o encontro, a singularidade), de melhor qualidade seria este registro.


Como chegamos lá? Com a perda de uma verdade inerente à imagem, ou melhor, a recusa do seu aspecto de revelação, para cada vez mais valorizar o caráter documental e objetivo da imagem-registro. Esta perda é fruto de um universo muito maior, o da cultura humana e de sua história, que presenciou a perda da fé religiosa do século XVI, o apodrecimento dos Estados Absolutos do século XVII, a ineficiência das leis universais da natureza newtonianas do século XVIII, a morte da verdade imortal do Belo do século XIX e da busca desenfreada por poética próprias, instantâneas e bem pagas do século XX. Uma perda que também é ganho, pois não temos que louvar as imagens, como no século XVI, propagar nossa fidelidade a elas, como no século XVII, pesquisar a sua verdade como no século XVIII, ou sua métrica, como no século XIX, apenas destituí-las de um desejo imortal, como quis o século XX e nos conscientizar, tal como na poética moderna, que a verdade é um acontecimento que habitamos aqui e agora, pois o hoje é "uma herança sem testamento" como dizia René Chair. Sem tradições, mais libertos, para um futuro nunca visto antes, que não está na esfera da singularidade, mas naquela que nos projeta a um destino outro, que seja o sonho do nosso querer hoje.


Para lidar com este mundo tão sem fé e verdades absolutas, um mundo relativizado por Einstein, Pollock e tecno rock jungle jazz sampler forro music,qual a maneira de sensibilizar, chamar atenção,chacoalhar a galera ?

Sangue, musicaria o U2
Sangue esculpiriam os artistas ingleses contemporâneos
Sangue, buscariam o cinema americano e os serialkiller
Sangue, produziriam os oficiais africanos
Sangue, banalizaria o J.Duran no biquíni e nas unhas da Luma de Oliveira
Sangue, apelariam os zapatistas e seqüestradores colombianos
Sangue, retratariam os fotojornalistas


O pior é que nada disto causa impacto por mais de 2 segundos, pois com tanto vermelho, como discernir os seus matizes e não resistir a vontade de virar a página ou clicar no mouse para outro site? Não seria o fotojornalismo, como ele se realiza hoje para alimentar sanguessugas das notícias, a expressão deste momento tão sem alma???

 

 
Mariana Várzea
é museóloga e vive no Rio de Janeiro
 
 
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