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A banalidade
x o armortecimento
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Este breve artigo surgiu
do debate "Heróis ou Abutres?" que tomou conta da lista Photosynthesis
durante uma semana, onde se discutia os limites éticos e estéticos do
fotojornalismo atual e sua incrível capacidade de registrar a miséria
humana em formas cada vez mais agudas. Considerando que esta discussão
tem mil faces, ressalto que a que vou abordar aqui diz respeito à maneira
como venho pensando o mundo e, por este motivo, ela é uma visão com certeza
parcial do assunto, devendo gerar uma série de "não concordos" clorofilas,
que nos fazem manter o Photosynthesis nas alturas...
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Meu ponto de vista é parte do princípio que o jornalismo atual televisivo
e parte considerável do impresso, em sua ânsia de chamar atenção da audiência,
vem cada vez mais noticiando os fatos de maneira banal e frívola, onde
a principal preocupação é ampliar a quantidade de leitores e não de melhorar
a qualidade da leitura dos mesmos e aprofundar a sua capacidade de julgar
o mundo. Este formato tem diversas causas e uma delas é ser conseqüência
do amortecimento do nosso olhar que anda cada vez mais apático e desinteressado,
para instiga-lo vem se produzindo a banalização do mal em reportagens
ilustradas com imagens mais do que contundentes da loucura humana.
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A banalidade do mal é entendida aqui como o fez Hannah Arendt em sua cobertura
do julgamento de Eichmann, a quem ela atribuiu uma feição de bobo da história,
por ter o comandante nazista dito que não sentia, nem nunca tinha sentido
culpa por ter torturado e matado milhares de judeus, porque este era o
seu papel enquanto soldado e não cabia-lhe discutir eticamente este papel,
mas executá-lo bem. O que penso é que esta inconsistência da maldade em
função do cumprimento de metas ou técnicas vem permeando todos os fazeres
humanos - lembrem-se dos cientistas que fizeram a primeira bomba nuclear,
quando cobrados em sua responsabilidade pelo que haviam criado, eles se
justificaram dizendo que estavam pesquisando os limites de sua ciência
e que jamais esperavam criar tão monstruoso instrumento do nosso fim,
não teriam eles mesmo espírito do profissionais que registram, através
do foto-jornalismo, de "maneira imparcial" os horrores da guerra e da
miséria como uma espécie de meta-imagem, não importando muito o que está
sendo retratado, o quão descomesurada são estas imagens? Sem desconsiderar
a ousadia e o valor do trabalho prestado por este profissionais, mas tendo
como horizonte desta discussão o artigo trazido pelo André Arruda em nossa
lista, não estaria o mundo da imagem à jato contribuindo para a banalização
do mal ?
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O que penso é que este tipo de cobertura é uma das facetas do fotojornalismo,
é o lado B de uma mesma moeda, cujo lado A é a amortização do olhar, fruto
do mundo do marketing, televisivo, internautico, virtual, que gera uma
espécie de complacência diante dos fatos, e certamente um empalidecimento
do espírito, que não sente, ou não se escandaliza, ou não se erotiza diante
de um sem números de imagens voláteis que passam pelos nossos olhos a
todo instante.
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Para refletirmos sobre a banalização da imagem/fotografia no mundo contemporâneo
é necessário compreender um pouco da sua história como representação das
coisas e dos sentimentos do homem. A imagem nasceu sabendo esperar, isto
é, a imagem nasceu símbolo, alegoria das coisas imortais. Ela era uma
espécie de tempo templum, carregado de sentido e veio perdendo este status
conforme foi deixando de revelar, para simplesmente registrar. Abro aqui
um parêntesis para relembrar a minha pergunta a vocês sobre o que é a
fotografia e reiterar que em todo o debate conseqüente a esta pergunta,
uma idéia me pareceu comum a todos : da fotografia ser um registro de
um momento visto como interessante , que quanto menos subjetivo e mais
objetivamente fiel àquele momento ( expressar a luz, o encontro, a singularidade),
de melhor qualidade seria este registro.
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Como chegamos lá? Com a perda de uma verdade inerente à imagem, ou melhor,
a recusa do seu aspecto de revelação, para cada vez mais valorizar o caráter
documental e objetivo da imagem-registro. Esta perda é fruto de um universo
muito maior, o da cultura humana e de sua história, que presenciou a perda
da fé religiosa do século XVI, o apodrecimento dos Estados Absolutos do
século XVII, a ineficiência das leis universais da natureza newtonianas
do século XVIII, a morte da verdade imortal do Belo do século XIX e da
busca desenfreada por poética próprias, instantâneas e bem pagas do século
XX. Uma perda que também é ganho, pois não temos que louvar as imagens,
como no século XVI, propagar nossa fidelidade a elas, como no século XVII,
pesquisar a sua verdade como no século XVIII, ou sua métrica, como no
século XIX, apenas destituí-las de um desejo imortal, como quis o século
XX e nos conscientizar, tal como na poética moderna, que a verdade é um
acontecimento que habitamos aqui e agora, pois o hoje é "uma herança sem
testamento" como dizia René Chair. Sem tradições, mais libertos, para
um futuro nunca visto antes, que não está na esfera da singularidade,
mas naquela que nos projeta a um destino outro, que seja o sonho do nosso
querer hoje.
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Para lidar com este mundo tão sem fé e verdades absolutas, um mundo relativizado
por Einstein, Pollock e tecno rock jungle jazz sampler forro music,qual
a maneira de sensibilizar, chamar atenção,chacoalhar a galera ?
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| Sangue, musicaria
o U2 |
| Sangue esculpiriam
os artistas ingleses contemporâneos |
| Sangue, buscariam
o cinema americano e os serialkiller |
| Sangue, produziriam
os oficiais africanos |
| Sangue, banalizaria
o J.Duran no biquíni e nas unhas da Luma de Oliveira |
| Sangue,
apelariam os zapatistas e seqüestradores colombianos |
| Sangue, retratariam
os fotojornalistas |
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O pior é que nada disto causa impacto por mais de 2 segundos, pois com
tanto vermelho, como discernir os seus matizes e não resistir a vontade
de virar a página ou clicar no mouse para outro site? Não seria o fotojornalismo,
como ele se realiza hoje para alimentar sanguessugas das notícias, a expressão
deste momento tão sem alma???
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