O REI ESTÁ NU
por Andre Arruda

Estamos imersos em informação. A sociedade industrial deu lugar a sociedade de informação e a informação cada vez mais é espetáculo. Nessa quase promiscuidade multimídia de dados, imagens e notícias, é cada vez mais difícil uma avaliação criteriosa do que ouvimos/vemos/lemos. Da sorte de equívocos e ''obras de arte'' que desabam sobre nossas cabeças diariamente, como a exposição de paredes brancas de uma obscura galeria de arte em Birmingham, Inglaterra, até um livro sem nada escrito e apenas um tiro, isso mesmo, de revólver, perfurando as páginas, o fotógrafo cego Evgen Bavcar é o maior, sem dúvida.


Fotografia é uma atividade científica, de precisão e apuro técnico. Envolve física e química em sua concepção primária, cuja aplicação não é meramente empírica, como muitos acreditam ser e sim fruto de muito estudo e dedicação, do conhecimento de vários tipos de luz, de óptica e que envolve cada vez mais questões digitais. Em sua essência, porém, a fotografia é luz refletida, filtrada por um uma lente, captada pelo olho humano e processada pelo cérebro. Não mudou nem mudará desde a sua patente, em 1839, pelo francês Nicephore Niépce.

É preciso VER, ainda que muitas vezes seja duro admitir isso.

 

O que o sr. Bavcar se propõe é apenas mentira. Só fotografa quem vê, não quem tem a simples percepção física do quê deve ser fotografado. E outro absurdo nas ''fotografias'' - aspas nunca foram tão bem empregadas - deste filósofo é que suas imagens em preto e branco são muito bem trabalhadas em termos de luz, composição e laboratório. Como ? um cego não pode manipular fontes de luz e os precisos ampliadores de copiagem. Na recente entrevista no programa Jô Soares (27/03/2001) ele não quis revelar suas ''técnicas'', que incluem composição apurada até light painting... é óbvio que outras pessoas participam da concepção e da realização da ''fotografia'' desse esloveno radicado em Paris, cujas funções extrapolam os papeis de simples assistentes.

Por mais avançada que a tecnologia da fotografia esteja, com dispositivos como foco automático ou sistemas de cálculo de exposição cada vez mais exatos, não é possível aceitar que um deficiente visual (este que vos escreve parcialmente o é) que tire fotos se intitule fotógrafo apenas por querer fotografar. Seria mais um exemplo da ''culpa de Van Gogh'', um fardo que o mercado de arte carrega por não ter prestado atenção no excepcional trabalho do pintor holandês em sua época. Desde Duschamp e seus ''ready mades'' do início do século XX, o objeto ordinário foi recortado do cotidiano e apresentado como arte. E nos anos 80 explodiram as instalações e a discussão da proposta se tornou maior do que a obra em si; é o que na língua inglesa se convencionou chamar de ''hype'', o ''bochicho, o disse-me-disse''. O trabalho de Bavcar tem o mesmo estatuto de credibilidade de um cd de uma cantora muda ou a récita de um bailarino tetraplégico. Ou o concerto de uma sinfônia em que os músicos não foram.
O trabalho fotográfico per se do sr. Bavcar pouco interessa; filósofo, homem culto e de elaborada retórica, não é de se admirar que a explicação sobre seu trabalho seja melhor do que sua obra, como estas ''caleidoscópicas'' declarações mostram: ''Há imagens demais, ninguém pode ver nada. É preciso voltar às trevas, à sombra, para achar as verdadeiras imagens. É o mundo invisível que me interessa" ou ''Na realidade, eu tentei fazer valer uma imagem mental convertendo-se em película. Isto que eu fotografo os outros não podem fazê-lo e vice-versa''.
Admitamos: é um homem de seu tempoo.

 

Apesar de sua paradoxal condição de ''fotógrafo cego'', o que certamente gera muita curiosidade e mídia em torno de seu personagem, a biografia de Evgen inspirou um belíssimo filme, o primeiro trabalho da diretora australiana Jocelyn Moorehouse. A Prova (1991) é a estória de Martin (Hugo Weaving, de Priscila, a rainha do deserto e Matrix), um cego que fotografa, não um fotógrafo cego. Ele vai a um lugar qualquer, um parque, um consultório, e tira uma foto com uma maquininha automática, motivado pelos cheiros, pelos sons, pela música, etc. Depois de reveladas, o personagem pede a um desconhecido qualquer que descreva essas fotografias, prosaicas cópias cor 10x15 cm, de laboratório 1 hora, em 10 palavras, que ele converte depois em etiquetas Braile, que serão, literalmente, o arquivo de suas ''memórias visuais''. Martin conhece uma moça, Celia (a gata balzaquiana Genevieve Picot), que é apaixonada por ele mas não tem o amor correspondido. Entra um terceiro personagem, Andy (Russel Crowe, em um de seus primeiros papéis), que trabalha como garçom e se torna amigo de Martin. Nasce um triângulo amoroso dessa intrincada relação, que é afetada por uma foto tirada ao acaso. A Prova é um filme sensível, sem os clichês hollywoodianos e trata as relações em sua questão mais vital: a confiança. Vale a pena ser visto.

Nesse caso, o cinema é melhor que a vida real.

 
*Leia a fábula de Hans Cristian Andersen aqui
 
 
 
Andre Arruda
é fotógrafo e vive no Rio de Janeiro
 
 
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