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As exposições de foto-jornalismo
têm se tornado um bom tema para um caloroso debate. Este foi o caso com
a exposição de Sebastião Salgado no "European Photography Center" em Paris
(vide Le Monde; Michel Guerrin, Jean-François Chevier, Roger Therond,
Alain Mingam em maio e julho passados), e também com a exposição de James
Nachwey no ICP em Nova Iorque (vide The Village Voice, 7 de junho, em
matéria assinada por B.Woodward).
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Todas essas criticas são altamente controvertidas, cheias de equívocos
terminológicos, mas têm um ponto em comum: o de considerar o fotojornalismo
reconhecido como um gênero - um gênero que deveria ser defendido prontamente
e da maneira mais "Poujadist", onde a a fotografia deveria ser defendida
ou acusada de "foto-jornalística", em nome da historia. Essa questão merece
ser refletida e comentada. E claro, alguns lembretes básicos não podem
ser evitados.
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Fingimos acreditar que
quando usamos o termo "foto" (fotografia seria mais adequado) estamos
falando de um objeto claramente identificado. Porém, na verdade não é
assim. Estamos simplesmente falando sobre imagens que têm em comum apenas
a técnica com a qual foram feitas, que associa ótica e química para fixar
uma imagem através da exploração da sensibilidade dos sais de prata à
luz. Imagens como aquelas feitas em máquinas de retrato automáticas, ou
Polaroids que minha sobrinha faz no seu aniversário ou aquelas transmitidas
pela Reuters para nos informar sobre o que está acontecendo no mundo,
ou as ampliações exibidas por Gilles Peress para nos conscientizar da
situação na Bosnia, ou aquelas em edição limitada feitas por Nan Goldin
e celebradas por galerias e museos - todas elas são chamadas de "fotografias".
O que elas têm em comum? Chamá-las de "fotografias" não diz nada sobre
elas além do fato de que elas não serem desenhos, nem pinturas e nem computação
gráfica.
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Está mais do que na hora da imprensa enfatizar algo que os fotografos
já sabem há um seculo e meio: de que nenhuma fotografia é objetiva. Nenhuma
fotografia é capaz - por sua própria natureza - de nos dar uma informação
precisa.
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Uma fotografia só sabe dizer, "sou uma fotografia". Isso implica em pensar
que para que ela possa existir "algo" tri-dimensional existente no mundo
a preceda. É um atestado de que aquilo que ela representa "foi" e consequentemente
não é mais, pertencendo a um momento do tempo passado, desaparecido e
definitivamente inacessível. É uma marca do passado, prova da existência
ida dos objetos que ela fixou em formas.
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Sendo assim, segue-se que a maneira pela qual a imprensa insistentemente
usa a fotografia como testemunho da realidade e prova de sua própria veracidade
é com toda certeza a maior mentira destilada pela midia durante os últimos
cem anos. Quanto a isso, pode-se somente acrescentar que nossa crença
enganosa no poder da fotografia de revelar a "verdade" tornou-se um valor
cultural comum "inquestionável". É um tipo de relacionamento religioso
com ícones fotográficos que todos compartilhamos nesse sistema cultural.
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Dizemos "fotografia", a começar por mim. Assim mesmo, há muito poucos
entre nós que realmente vêem fotografia. Todos nós estamos olhando para
elas e consumindo os usos da fotografia. Isto eh, generalizando, a re-impressão
e edição de fotografias sem o conhecimento do fotógrafo sobre como e porque.
Uma fotografia só é "boa" pelo uso que é feito dela, no contexto em que
ela se encaixa e depende da pertinência da mensagem.
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Essa realidade simplesmente sublinha a fragilidade e os limites da prática
fotográfica, que produz imagens que só podem existir se encontrarem um
meio de distribuição. Como os canais de distribuição estão sempre dependendo
de fatores econômicos, eles se apropriam da imagem fotográfica e, tirando
vantagem de sua dimensão polissêmica, fazem com ela aquilo que consideram
útil comercialmente. Aparece uma fotografia com nenhuma "mensagem" particular,
daí ela é pega como refém de operadores que a fazem dizer aquilo que eles
desejam.
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Dito isso, como fica o "foto-jornalismo"? Há muito tempo já sabemos que
esta noção, só mais uma das muitas tentativas de confinar os profissionais
da fotografia a um emprego e um rótulo fácil que os subdivide em "imprensa",
"guerra", "gente" or qualquer outra coisa, nada mais é do que uma conveniência
mental - ou melhor, uma ausência mental - aparecida nas páginas do Le
Monde por François Hers ou Jean-François Chevrier há pelo menos dez anos
atrás.
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Estou convicto de que "foto-jornalismo" não existe. O que existe são profissionais
que trabalham e publicam na imprensa. O que existe são fotógrafos que
têm dado à fotografia um papel de documentário e que querem ver suas investigações
impressas em milhares ou milhões de cópias. Só isso. Sem falar dos jornais,
hoje mais fortes do que nunca, que querem, por interesses comerciais,
se apropriar dos trabalhos fotográficos que exploram mundos, situações,
eventos e os transformam em discussões para colocar no mercado as toneladas
de jornais que eles imprimem e vendem.
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Será que aqueles que fazem documentários que exploram situações visualmente
e depois selecionam e arrumam o marerial a fim de propor uma narrativa
confiável de suas experiências estão os manipulando? Não que o que eles
estão dizendo seja mentira. Tirando partido de nossa credulidade com respeito
à fotografia, eles nos apresentam como "verdade" o que é de fato somente
um ponto de vista subjetivo e particular. Quando têm talento, são
capazes de libertar as emoções que eles sentiram no momento em que estavam
fotografando e reconstruir aquilo que estava acontecendo.
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Considero que seria saudável para muitos fotógrafos abandonar sua reinvidicação
de status de "foto-jornalista" e deixar claro que estão trabalhando no
campo documental ou qualquer outro campo que escolham. O único problema,
e nada fácil, se refere a seu status fiscal e social. Mas esta é uma outra
estória.
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Se eles aceitarem a se colocarem no campo de documentário, estarão se
confrontando com uma questão, da qual geralmente tentam fugir: por que
razão estou registrando esses fragmentos da realidade que só dizem respeito
a mim, mexem comigo e me parecem importante? O que farei com eles? O que
quero dizer com eles?
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Penso que esta seja a única pergunta que alguém possa fazer a Sebastião
Salgado, cuja sinceridade, magnitude e coerência estética de seu trabalho
são inegáveis. Realmente, não há razão para se acreditar que sejam lá
quais forem as "boas intenções" que pavimentam o paraíso do foto-jornalismo
sua função primordial - quem sabe sua única função? Seja oferecer à contemplação
a perfeição formal. As fotografias são registro de um estilo brilhante
o qual, por não apontar para a causa (talvez a gente gostaria de ver estampado
no gesto épico dos Sem Terra brasileiros algumas imagens dos proprietários
das terras responsdáveis por sua destituição) e porque é parte de uma
tradição estética cujos códigos constantemente repetidos se tornaram esteriótipos,
podem ser consideradas muito "belas" mas sua pertinência é duvidosa. O
livro de retrato de crianças do êxodos (o Le Monde publicou extratos durante
duas semanas) é provavelmente um dos melhores exemplos da incapacidade
de se ajudar a resolver problemas dessa forma (o que na verdade era o
projeto do Salgado): não passam de imagens piedosas de crianças infelizes,
com o lhar do mestre conferindo a elas a dignidade que é apenas fotográfica.
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Esta tradição é fundada, enquanto forma, na invenção de imagens gráficas
magníficas - baseadas no classissismo da seção dourada - por Henry Cartier-Bresson
nos anos trinta e na prática dos "ensaios fotográficos" desenvolvida por
W.Eugene Smith nos anos cinquenta nos Estados Unidos. Essas práticas,
rica de um humanismo inquestionável, tornaram-se modelos quando a televisão
ainda não era o vetor dominante de informação através de imagens. A estética
dessas fotografias pre-TV e Internet e não somente as poucas que se tornaram
nossa herança (do soldado republicano que foi atingido por balas na frente
Ebro e imortalizado por Capa ao Algerian "Madonna" de Hocine) criaram
uma espécie de matrizes icônicas que, por serem repetidas muitas vezes
eplos fotógrafos, tornaram-se esteriótipos, clicês, forma pura, conhecimento
sem surpresas, levando-nos a pensar que a situção em Goszny é a mesma
que em Sarajevo.
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Para aqueles que produzem imagens explorando o mundo contemporâneo, e
para aqueles que as publicam, a questão é dar a elas uma função real,
numa época em que a fotografia não tem mais um papel dominante no processo
de eleboração da notícia. O ponto é que a TV não é uma inimiga e nem a
Internet uma praga. O que queremos dizer é que se faz necessário definir
claramente como a fotografia pode ser útil agora, porque ela está se dando
uma função e significado ao adotar um modo de atuar e uma aproximação
estética diferente da televisão.
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Proposições existem, mas só acidentalmente têm encontrado lugar na imprensa,
que teme que novas propostas graficas e conceituais possam ameaçar seu
negócio. E elas só existem porque outras tradições documentais, não aquelas
de acordo com os quais os trabalhos "classicos" são construidos, também
existiram. A primeira entre elas sendo as de Walker Evans e Robert Franck.
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É por olhar para essa direção, por explorar o tipo de relacionamento com
a realidade que as imagens induzem, através de assumir parte da experiência,
o egoísmo e o radical nelas, que os autores de hoje propõem nos confrontarmos
com o mundo. I só irei citar alguns nomes de pessoas trabalhando em diferentes
direções mas que têm em comum uma reflexão fundamental sobre a fotografia
e sua natureza, sobre imagética e seus perigos, sobre a noção de compromisso,
sobre a necessidade de quebra e o efeito que ela deve ter. Por exemplo,
alguém como Gilles Peress ou alguém como Eugene Richards, que pertence
à tradição de Cartier-Bresson mas tem feito a forma e os modos de utilização
mais complexos. Por exemplo, Sophie Ristelhueber ou Marc Pataud, cujo
olhar claramente político forneceu material para proposições radicias
que sejam mais conceituais e problemáticas. Por exemplo, alguém como Bihn
Burke nos Estados Unidos, seguido de alguém como Philip Blenkinsop, como
Michel Ackerman, Antoine, d'Agata ou Oliver Pin Fat, que exploram situações
extremas de uma maneira extrema sem mesmo se esconderem por trás de uma
suposta objetividade, pois eles querem nos implicar e fazer com que tenhamos
uma reação.
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A prática deles fez com que eu compreendesse recentemente que eles estavam
propondo uma função centralizadora, o recorte do espaço escolhido pelo
fotógrafo, que é completamente diferente da estética daquelas "boas fotos"
brilhantemente compostas por Cartier-Bresson e seus seguidores. O olhar
deles, que muitos consideram desorganizado - movimentos fora de foco,
borrões, falta de equilíbrio, multiplicação de formatos, acidentes, escória
- me obrigam a pensar que o que está fora da lente existe, ao passo que
a centralização clássica fazia justamente o oposto. Quando olho para um
retangulo perfeitamente composto estou condenado pelo rigor do grafismo
que me controla, a circular o meu olhar dentro daquele retângulo, do qual
minha visão não pode ser libertada. Sou obrigado a ignorar tudo o que
não estiver enquadrado na moldura. Estou simplesmente contemplando uma
parcela do mundo a qual o fotógrafo atribuiu um papel exemplar. O resto,
desprezado por não constituir uma "boa fotografia" mergulha na obscuridade.
E assim é que imagens, cheias de certezas, muitas vezes arrogantes, sobrepõe-se
à realidaade antes de se substituir.
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Uma alternativa para "boa fotografia", que Michel Guerrin diz estar agora
em uma postura difícil, existe sim. Esta alternativa tem uma força e vitalidade
inegáveis. Ainda não encontrou o seu lugar no mídia impressa , que ainda
não encontrou um jeito de se posicionar a respeito da televisão. Entretanto,
é exbido, publicado, colecionado e mostra sua face timidamente em algumas
publicações.
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Tem um grande mérito porque faz um exame salutar daquilo que está em risco
quando a fotografia se apropria de si mesma para confrontar o mundo contemporâneo
e submetê-lo a questionamento. Ela nos diz forçosamente que o compromisso
hoje é somente uma questão de escolha estética, da mesma forma que é uma
escolha de assuntos, de temas. Ela expressa dúvidas humildes que são saudáveis,
o que não elimina o fato de serem exigentes. Ela reafirma um velho princípio
que já havia sido desenvolvido pelos filósofos pre-socráticos da Grécia:
na há como a estética servir para alguma coisa se ela não estiver dundada
na ética. E isso não significa simplesmente uma atitude moral, sem falar
de moralizante. Esta é uma definição satisfatória de um dos mais manchados
termos de nossa época: política.
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Boa fotografia, uma que não existe, pode bem ser a fotografia política,
no sentido filosófico da palavra. Segue-se então que quando uma fotografia
é exbida, emoldurada, pendurada na parede, um processo é iniciado no qual
os fotógrafos são novamente questionados a respeito da natureza de seu
propósito ao confrontar a realidade. Haverá uma demanda por se saber exatamente
porque eles estão mostrando sua fotografia da maneira que escolheram,
o que os levará a explicar como a fotografia foi feita. Quando, antes
do domínio da televisão, Cartier-Bresson ou Kertèsz, e mais tarde Eugene
Smith penduraram suas fotografias nas paredes das galerias ou museos,
o único objetivo era mostrar o resultados de suas observações melhor do
que em revistas. Mostrar ao público o trabalho vivo, por assim dizer.
E se alguém quisesse comprar as fotos, isso não significava que o autor
fosse um artista. Somente o tempo e a história dirão.
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Os jovens que mencionei antes, conscientes de que a televisão é um meio
de notícias e que a maior parte da imprensa é desesperadamente medíocre,
estão preocupados com a forma que escolhem quando apresentam suas imagens
ao investigar o mundo real. Às vezes eles se recusam a emoldurá-las, eles
compõem painéis, eles escrevem nas fotos, espirram sangue nelas, propõem
albuns de grande formato dialogando no espaço com fotos espetadas nas
paredes. Resumindo, eles vão por todos os caminhos para afirmar que a
doção de uma forma produz um significado, que eles fizeram suas escolhas,
que eles sabem que a moldura, fisicamente falando, não é somente um pedaço
de madeira que não tem nenhum efeito. Críticos e virulentos, eles se consideram
estar no campo das artes, ou pelo menos no campo visual criativo de hoje.
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O aumento de exposições de fotógrafos para o público em geral que, sejam
quais forem seus talentos ou sinceridade, continuam sonhando que a fotografia
é uma arte porque lembra uma pintura, criou uma revolta sulutar de alguns
caras horrivelmente talentosos. Comentários de que a impressão em formato
gigantesco de imagens do cotidiano não é suficiente para constituir um
trabalho criativo, ou que colocar documentos bem compostos sob "marie-louises"
não os transforma em ícones da arte contemporânea.
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Inegavelmente, a estrada está sendo pavimentada para a passagem da autonomia
expressiva da fotografia. Uma fotografia castigada pelo real e a qual
se ri de um século e meio de pictorialismo não assumido.
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