SALGADO - ÊXODOS, A EXPLORAÇÃO DA COMPAIXÃO
ponto de vista de Jean-François Chevrier

 

Sebastião Salgado é um fotógrafo consagrado desde sua reportagem sobre a fome em Sahel, em 1984. Sua familiaridade com o Preto e Branco é fora de cogitação. Podemos verificar em seu projeto "Exodos", a descobrir numa exposição de 350 fotos à Casa Européia da Fotografia (Maison européenne de la photographie - MEP), em Paris, e dentro de seus dois livros. O enquadramento é excelente, mas não há imagens que se destaquem a partir da quarentena de reportagens realizadas aos quatro cantos do planeta, que associem as megalópoles e os retratos de crianças, dos povos sem estado (Curdos) e de outros martirizados pela guerra (Kosovo, Ruanda).

 
 

Uma foto de Salgado se inscreve na tradição de Cartier-Bresson realçada de lirismo e de referências à, releva Christian Caujoule em Sebastião Salgado (, Nathan,1993): composições harmoniosas e dinâmicas, perspectivas apuradas, ricas nuances entre o preto e o branco, grão pictorial, luzes divinamente caídas do céu, contra-luzes repetidas, céus carregados e evanescentes, lembranças emocionantes, figuras perdidas num caos providencial, repetição de Madonnas e Fugas Egípcias.

 
 

EMOÇÃO E POUCA MOBILIZAÇAO - Michel Guerrin
Esta estética próxima do clichê, acadêmica e assegurada, está ao serviço do
que Salgado diz defender querendo sensibilizar a opinião. Pouco importa que haja imagens em demasia entulhadas na MEP, que os dois livros se assemelhem à sucessão de portfólios maravilhosamente impressos mas sem verdadeiramente começar nem terminar. O essencial seria testemunhar e enriquecer o debate - as longas legendas, muito mal escritas e ricas em dados estatísticos, acompanham as imagens do livro Exodos. As organizações não governamentais (ONG) seguem defendendo a fotografia.

 
 

A maioria do público comunga no baile dos oprimidos. Breve, Salgado tutela a graça, que lhe é intocável. À frente das imagens, não é portanto o sujeito que retém o olho, nem a testemunha, mas o esteticismo vaidoso que anestesia a realidade, a doação aceitável, reconhecível e consensual. Uma boa imagem de reportagem sugere um contexto, aquele que a contorna, põe em ameaça o espectador, o desestabiliza ou o faz refletir. Em Salgado, o enquadramento torna-a um ícone pavimentado de boas intenções e faz esqueçer aquilo que o autor do retrato liberou por uma emoção direta mas estéril e sem mobilização - salvo por permitir-se chegar ao fundo.

 
 

Essa impressão de que a emoção oculta a reflexão é ainda mais forte que o esteticismo de Salgado e acentua sua visão global do mundo. Os gestos das vítimas do êxodo, suas lembranças, seus movimentos, sua destreza são erguidas em estereótipos. Mais uma obra é globalizante, menos ela derrapa, repete a artista americana Martha Rosler. Em Salgado, esta proximidade traduz uma dupla influência marxista e cristã. Pela preçe marxista que é, ao bem da humanidade e mais importante que os destinos individuais. É a razão pela qual não sentimos, em Salgado, uma relação de intercâmbio com outras fotografias. Roland Barthes igualmente bem explicou nas suas Mitologias (Mythologies-1957), abordando a exposição fotográfica "família do homem"(1955) - muito próxima das concepções de Salgado - , que uma visão fotográfica globalizante põe à frente uma - a fatalidade contra a história - orquestrada por um Deus providencial, contra o qual ele não sai para lutar.

 
 

Esta aura benevolente está ao seu preenchimento nos planos largos de refugiados ou ou de hordas martirizadas, dominadas por uma paisagem lírica. Essas imagens, as mais espetaculares, compõem páginas duplas dentro do livro e em formato maior que na exposição. Elas testemunham a ambiguidade de seu autor que mostra uma , para fixar uma expressão de Robert Frank, que não se sabe mais se Salgado quer denunciar ou perpetuar. Há, em um sentido, pontos comuns entre o trabalho de Salgado e o de Oliviero Toscani para a Benetton. Os dois produzem impactos visuais primários, joganto sobre a adesão-repulsão. Sabe-se que as fotos de Toscani servem para vender pulôveres. Não se sabe se os bons sentimentos de Salgado melhoram a condição daquela gente, mas são eficazes para entreter sua própria mitologia.

 
     
 
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Jean François Chevrier
é professor da Escola Nacional Superior de Belas Artes de Paris.
(publicado no jornal francês Le monde em 18 de abril de 2000)
 
 
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