"A digimagem e o novo processo de edição fotográfica"
por Flávio Rodrigues


O advento da informatização trouxe inegáveis vantagens na produção da fotografia nos jornais atuais. Além de acelerar o processo de maneira mais eficiente, a guarda dessas informações se tornou mais eficaz. Entretanto, o processo de digitalização da fotografia gera um produto final, que a despeito de ficar mais à disposição das redações, traz em seu bojo, a anulação do processo de edição fotográfica.


 

ilustração de Guto Novo

         
     


De modo geral, os jornais atuais estão "painelizados", isto é, são feitos de acordo com o perfil de seus leitores, e cada vez mais a revelia da editoria de fotografia. Os fotógrafos aceitaram plenamente o processo, mas a qualidade da edição fotográfica caiu vertiginosamente. E por quê?

Um dos objetivos atingidos com a digitalização da fotografia diz respeito à questão velocidade e eficiência. O papel tem seus dias contados, o ampliador fotográfico vira peça de museu, os computadores chegaram e tomam lugar das antigas processadoras de papéis. A foto sai mais rápida para as impressoras, em processo orquestrado pelo computador em todas as suas fases, após a revelação do filme. Se considerarmos as câmeras digitais, suprime-se também as processadoras de filmes.

Do ponto de vista da qualidade do produto fotografia, perde-se em favor de bites e megabites, e ganha-se na velocidade da informação, com conseqüente economia de tempo e custos. Quanto mais cedo os jornais fecharem, mais exemplares são impressos, maior é o lucro de seus donos. Em detrimento dessa equação, o antigo processo de edição da fotografia perdeu seu posicionamento, de relevada importância, e se reduz às tarefas básicas no fechamento do jornal. Hoje em dia, com os programas de apresentação de fotos em rede, os Thumbnails, o acesso à foto desejada ficou mais fácil, provocando um engessamento da fotografia no que diz respeito ao conceito. Ora, hoje em dia os filmes são editados de acordo com a redação, na visualização quase instantânea das fotos produzidas naquele dia. A escolha das fotos cai cada vez mais na indicação dos repórteres de texto que fizeram uma determinada matéria. Antigamente, o editor de fotografia mandava para a redação o que entendia ser a melhor foto para uma matéria. Hoje, quando ele "edita" o filme - na verdade um mister prosaico de escolher uma foto em foco e razoavelmente enquadrada, estará cumprindo um caminho que se originou nos aquários da redação, uma instância reconhecida como superior.

Com a visualização rápida nesses softwares, a redação "percebe" que a editoria de fotografia não lhe enviou as fotos segundo critérios do repórter e passa em seguida a cobrar que sejam "editadas" fotos mais adequadas, mais "no espírito da matéria". A fotografia se tornou excluída do processo de produção de matérias e o editor um mero escolhedor de fotos, sem a devida autoridade para plantar a foto que bem entende, da mesma forma que um editor de área fará na capa de seu caderno. Ali ele publica o que quer, a pauta ele escolhe e isso é imutável. Quando, porém, o editor de fotografia quer a publicação de uma determinada foto, via de regra, é ele quem tem menos autoridade, nesse diálogo com diagramadores e editores, que freqüentemente têm a palavra final. A falta de discussão que se origina na digitalização de imagens, cujo processo é muito rápido, traz esse inconveniente, ao emudecer a fonte de origem da fotografia.

Há alguns anos esteve visitando jornais brasileiros, o editor de fotografia de uma jornal de Providence, Estados Unidos. Quando perguntado sobre como se desenrolava o processo de publicação de fotos, ele não teve dúvidas em afirmar que a editoria de fotografia decidia qual foto publicar, em que tamanho e em que página, claro, preservados critérios mínimos de ligação com os assuntos existentes. Referia-se à autoridade do editor de fotografia, como a de um médico, no momento de uma cirurgia, onde decide isoladamente que caminho tomar. Todos respeitam o cirurgião, poucos o editor de fotografia.

Ora, a digitalização não pode e não deve sobrepor-se de forma tão arraigada à autoridade da editoria de fotografia. A foto conceitual, que produzida antigamente em todos os jornais brasileiros, começa a perder seu espaço para a foto informativa, e é sempre um apêndice do texto, sempre tendo como base a informação de quem escreve a matéria.

Crise de indentidade? Crise de autoridade? Talvez ambas, mas certamente com um elemento vem se somar aos primeiros. A digitalização lineariza a fotografia jornalística, a pasteuriza de tal forma, que os quadros nos jornais se tornam homogêneos e sem grandes estrelas. E isso é decorrente também do advento da digitalização, uma vez que com o auxilio dos softwares de tratamento de imagens, qualquer fotografia é recuperável, qualquer imagem é aproveitável. Um clichê mal exposto pode se tornar uma grande foto, desde que manipulado convenientemente no software de tratamento. Ou seja, o processo digital aproxima talentos e medíocres, globalizando o processo produtivo de tal sorte, que os talentos se vêem abafados como conseqüência das benesses da digitalização.

Considerando o processo digital como um agente na nova forma de ilustração de imagens, cria-se hoje uma nova fotografia, a "digimagem", que significa fotografia manipulada através de poderosos softwares. Hoje em dia essa nova fotografia, a digimagem, ainda não tem estatuto próprio, e como se propaga com velocidade espantosa, se constitui num fenômeno que afasta ainda mais a tradicional fotografia e seus autores intelectuais do processo de produção. Saem de cena os fotógrafos e entram os tratadores de imagens; eles trocam fundos, aplicam filtros, criam novas "imagens". A partir desse momento é fundamental o cuidado com a fotografia originalmente feita, no que diz respeito a sua manipulação. Há que se respeitar seus autores quando do manuseio de sua obra, e principalmente quando se pretende alterar o sentido inicial. A foto jornalística não deve ser manipulada aleatoriamente. Quando entrar na composição de uma ilustração, é necessário que se informe ao leitor que se trata de uma digimagem.


Publicado no jornal Paparazzi - jornal bimestral da Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro - ARFOC/Rio, Ano VIII - abril/maio de 1999, nº 73.

Flávio Rodrigues
é fotógrafo e reside no Rio de Janeiro

 
     
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