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De modo geral, os jornais atuais estão "painelizados", isto é, são feitos
de acordo com o perfil de seus leitores, e cada vez mais a revelia da
editoria de fotografia. Os fotógrafos aceitaram plenamente o processo,
mas a qualidade da edição fotográfica caiu vertiginosamente. E por quê?
Um dos objetivos atingidos com a digitalização da fotografia diz respeito
à questão velocidade e eficiência. O papel tem seus dias contados, o
ampliador fotográfico vira peça de museu, os computadores chegaram e
tomam lugar das antigas processadoras de papéis. A foto sai mais rápida
para as impressoras, em processo orquestrado pelo computador em todas
as suas fases, após a revelação do filme. Se considerarmos as câmeras
digitais, suprime-se também as processadoras de filmes.
Do ponto de vista
da qualidade do produto fotografia, perde-se em favor de bites e megabites,
e ganha-se na velocidade da informação, com conseqüente economia de
tempo e custos. Quanto mais cedo os jornais fecharem, mais exemplares
são impressos, maior é o lucro de seus donos. Em detrimento dessa equação,
o antigo processo de edição da fotografia perdeu seu posicionamento,
de relevada importância, e se reduz às tarefas básicas no fechamento
do jornal. Hoje em dia, com os programas de apresentação de fotos em
rede, os Thumbnails, o acesso à foto desejada ficou mais fácil, provocando
um engessamento da fotografia no que diz respeito ao conceito. Ora,
hoje em dia os filmes são editados de acordo com a redação, na visualização
quase instantânea das fotos produzidas naquele dia. A escolha das fotos
cai cada vez mais na indicação dos repórteres de texto que fizeram uma
determinada matéria. Antigamente, o editor de fotografia mandava para
a redação o que entendia ser a melhor foto para uma matéria. Hoje, quando
ele "edita" o filme - na verdade um mister prosaico de escolher uma
foto em foco e razoavelmente enquadrada, estará cumprindo um caminho
que se originou nos aquários da redação, uma instância reconhecida como
superior.
Com a visualização rápida nesses softwares, a redação "percebe" que
a editoria de fotografia não lhe enviou as fotos segundo critérios do
repórter e passa em seguida a cobrar que sejam "editadas" fotos mais
adequadas, mais "no espírito da matéria". A fotografia se tornou excluída
do processo de produção de matérias e o editor um mero escolhedor de
fotos, sem a devida autoridade para plantar a foto que bem entende,
da mesma forma que um editor de área fará na capa de seu caderno. Ali
ele publica o que quer, a pauta ele escolhe e isso é imutável. Quando,
porém, o editor de fotografia quer a publicação de uma determinada foto,
via de regra, é ele quem tem menos autoridade, nesse diálogo com diagramadores
e editores, que freqüentemente têm a palavra final. A falta de discussão
que se origina na digitalização de imagens, cujo processo é muito rápido,
traz esse inconveniente, ao emudecer a fonte de origem da fotografia.
Há alguns anos esteve visitando jornais brasileiros, o editor de fotografia
de uma jornal de Providence, Estados Unidos. Quando perguntado sobre
como se desenrolava o processo de publicação de fotos, ele não teve
dúvidas em afirmar que a editoria de fotografia decidia qual foto publicar,
em que tamanho e em que página, claro, preservados critérios mínimos
de ligação com os assuntos existentes. Referia-se à autoridade do editor
de fotografia, como a de um médico, no momento de uma cirurgia, onde
decide isoladamente que caminho tomar. Todos respeitam o cirurgião,
poucos o editor de fotografia.
Ora, a digitalização não pode e não deve sobrepor-se de forma tão arraigada
à autoridade da editoria de fotografia. A foto conceitual, que produzida
antigamente em todos os jornais brasileiros, começa a perder seu espaço
para a foto informativa, e é sempre um apêndice do texto, sempre tendo
como base a informação de quem escreve a matéria.
Crise de indentidade? Crise de autoridade? Talvez ambas, mas certamente
com um elemento vem se somar aos primeiros. A digitalização lineariza
a fotografia jornalística, a pasteuriza de tal forma, que os quadros
nos jornais se tornam homogêneos e sem grandes estrelas. E isso é decorrente
também do advento da digitalização, uma vez que com o auxilio dos softwares
de tratamento de imagens, qualquer fotografia é recuperável, qualquer
imagem é aproveitável. Um clichê mal exposto pode se tornar uma grande
foto, desde que manipulado convenientemente no software de tratamento.
Ou seja, o processo digital aproxima talentos e medíocres, globalizando
o processo produtivo de tal sorte, que os talentos se vêem abafados
como conseqüência das benesses da digitalização.
Considerando o processo digital como um agente na nova forma de ilustração
de imagens, cria-se hoje uma nova fotografia, a "digimagem", que significa
fotografia manipulada através de poderosos softwares. Hoje em dia essa
nova fotografia, a digimagem, ainda não tem estatuto próprio, e como
se propaga com velocidade espantosa, se constitui num fenômeno que afasta
ainda mais a tradicional fotografia e seus autores intelectuais do processo
de produção. Saem de cena os fotógrafos e entram os tratadores de imagens;
eles trocam fundos, aplicam filtros, criam novas "imagens". A partir
desse momento é fundamental o cuidado com a fotografia originalmente
feita, no que diz respeito a sua manipulação. Há que se respeitar seus
autores quando do manuseio de sua obra, e principalmente quando se pretende
alterar o sentido inicial. A foto jornalística não deve ser manipulada
aleatoriamente. Quando entrar na composição de uma ilustração, é necessário
que se informe ao leitor que se trata de uma digimagem.
Publicado no jornal
Paparazzi - jornal bimestral da Associação Profissional
dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos
do Rio de Janeiro - ARFOC/Rio, Ano VIII - abril/maio de 1999, nº
73.
Flávio
Rodrigues
é fotógrafo e reside no Rio de Janeiro
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