"Fotografia é (um grande) chute?"
por Soraya Simões
 

 

Num ambiente tenso, motivado pela blitz da Secretaria Estadual de Segurança que apurava denúncia de venda de favores, tinha que registrar os presos do Presídio Vicente Piragibe, do complexo Bangu I, sendo conferidos. Como não poderia fotografá-los diretamente, decidi por uma solução "noir" projetando suas sombras em uma das paredes dos corredores da prisão, as quais revelam um pouco do universo de desejo dos carcerários. E (por que não?) da humanidade.

Renan Cepeda
foto: Renan Cepeda    
      
   
 
"El verdadero fotógrafo no piensa. Se encuentra estimulado por contrastes de luz, por masas o movimientos que percibe".
(Jorge Bernuy)


 
    

Essa frase, do pintor peruano Jorge Bernuy, cunhada sem a menor reflexão, encabeça um texto sobre a "Crítica Social do Dadaísmo", onde podemos concluir que seu autor não é fotógrafo, muito menos dadaísta.

Para não dar margens à especulações, vamos considerar as duas hipóteses, fazendo um breve panorama do movimento dadá e a fotografia. Surgido em 1916 e liderado pelo poeta romeno Tristan Tzara, o dadaísmo pretendia ultrapassar qualquer barreira estética tomada ou imposta por outros movimentos, fazendo com que a expressão artística fosse arbitrária, "entregue aos acasos da invenção e do humor", como caracterizou seu próprio líder.

Antes de ser vista como uma aventura baseada no escândalo, a proposta dadá era uma tendência de contra-cultura diante dos valores estabelecidos durante a Revolução Industrial. Pelo caráter libertário, o dadaísmo reuniu artistas como Kandinski, De Chirico, Max Ernst, Picasso e Man Ray, vindos de diversas áreas e interessados em romper com a lógica e o racionalismo convencional. Seria absolutamente reducente considerar um movimento que abriu portas para o surrealismo como mera associação de artistas oportunistas.

Por essa característica "destruidora", o dadaísmo, quando mal interpretado, faz gerar críticas ou idéias tão perigosas quanto equivocadas (como a do fotógrafo acéfalo de Jorge Bernuy), que levam um iniciante a crer piamente no seu faro, sem considerar a técnica e a própria história da arte a que ele se propõe fazer. Crenças irresponsáveis e largamente difundidas, tais como o niilismo da arte dadaísta e da irrelevância de se pensar no momento do ato fotográfico, têm tido cada vez mais acolhida nos meios acadêmicos.

Em 1996, Alan Sokal, professor de física da Universidade de Nova York, publicou na "Social Text" (uma respeitada publicação americana de estudos culturais), o artigo "Transgredindo as fronteiras: Em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica". Com esse nome tão pomposo, o artigo foi debatido e elogiado por intelectuais para, logo em seguida, ser anunciado como uma grande paródia pelo próprio autor. Esse tipo de discurso pernóstico sempre conquista uma grande reputação mas, como provou Sokal, não passa de engodo intelectual que se alastra em algumas revistas e palestras, e encontra em alguns jovens - ávidos por referências "importantes" - um solo fértil para germinar toda uma ideologia distorcida da realidade.

Em vez de se estimular a criação e a pesquisa, o que vemos surgir são supostas "escolas", sem qualquer compromisso com a formação sólida de seus alunos. Basta estar um pouco atento para enxergar a armadilha. Nas bancas de jornais tornou-se difícil encontrarmos revistas que não contenham brindes ou fascículos para colecionar. Verdadeiros "Olhos de Medusa" esvaziando o bolso do consumidor desavisado. Da mesma forma e com a mesma isca, as já citadas "escolas" alardeam concursos (desde viagens à divulgação de trabalhos em agendas) em vez de divulgarem uma programação com currículo consistente de seus cursos.

Na fotografia e em outros trabalhos criativos, a ênfase dispensada incansavelmente à intuição do artista pode ser um sinal perigoso de que não há argumentação teórica para a prática artística. Cada passo dado na arte ou na indústria é decorrente de uma ação planejada ou mesmo ocasional, mas que só evolui quando bem pensada. A superficialidade com que vêm sendo ensinadas as artes plásticas e visuais subentende o pouco caso com que são tratadas. E assim vai rolando a bola de neve do "não pensar" e da busca pelo sucesso imediato estimulada por essas instituições preocupadas, unicamente, com a auto-promoção.

À primeira vista, a insensata frase do Bernuy pode parecer inofensiva. Mas enquanto ela for lida e divulgada sem uma devida reflexão, vamos continuar disputando um mercado (cada vez mais prostituido) com milhares de profissionais incapacitados e aspirantes à fama que acabam aumentando a legião de frustrados.

Soraya Simões
fotógrafa

 
   
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