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Essa frase, do pintor
peruano Jorge Bernuy, cunhada sem a menor reflexão, encabeça um texto
sobre a "Crítica Social do Dadaísmo", onde podemos concluir que seu
autor não é fotógrafo, muito menos dadaísta.
Para não dar margens à especulações, vamos considerar as duas hipóteses,
fazendo um breve panorama do movimento dadá e a fotografia. Surgido
em 1916 e liderado pelo poeta romeno Tristan Tzara, o dadaísmo pretendia
ultrapassar qualquer barreira estética tomada ou imposta por outros
movimentos, fazendo com que a expressão artística fosse arbitrária,
"entregue aos acasos da invenção e do humor", como caracterizou seu
próprio líder.
Antes de ser vista como uma aventura baseada no escândalo, a proposta
dadá era uma tendência de contra-cultura diante dos valores estabelecidos
durante a Revolução Industrial. Pelo caráter libertário, o dadaísmo
reuniu artistas como Kandinski, De Chirico, Max Ernst, Picasso e Man
Ray, vindos de diversas áreas e interessados em romper com a lógica
e o racionalismo convencional. Seria absolutamente reducente considerar
um movimento que abriu portas para o surrealismo como mera associação
de artistas oportunistas.
Por essa característica "destruidora", o dadaísmo, quando mal interpretado,
faz gerar críticas ou idéias tão perigosas quanto equivocadas (como
a do fotógrafo acéfalo de Jorge Bernuy), que levam um iniciante a crer
piamente no seu faro, sem considerar a técnica e a própria história
da arte a que ele se propõe fazer. Crenças irresponsáveis e largamente
difundidas, tais como o niilismo da arte dadaísta e da irrelevância
de se pensar no momento do ato fotográfico, têm tido cada vez mais acolhida
nos meios acadêmicos.
Em 1996, Alan Sokal, professor de física da Universidade de Nova York,
publicou na "Social Text" (uma respeitada publicação americana de estudos
culturais), o artigo "Transgredindo as fronteiras: Em direção a uma
hermenêutica transformativa da gravitação quântica". Com esse nome tão
pomposo, o artigo foi debatido e elogiado por intelectuais para, logo
em seguida, ser anunciado como uma grande paródia pelo próprio autor.
Esse tipo de discurso pernóstico sempre conquista uma grande reputação
mas, como provou Sokal, não passa de engodo intelectual que se alastra
em algumas revistas e palestras, e encontra em alguns jovens - ávidos
por referências "importantes" - um solo fértil para germinar toda uma
ideologia distorcida da realidade.
Em vez de se estimular a criação e a pesquisa, o que vemos surgir são
supostas "escolas", sem qualquer compromisso com a formação sólida de
seus alunos. Basta estar um pouco atento para enxergar a armadilha.
Nas bancas de jornais tornou-se difícil encontrarmos revistas que não
contenham brindes ou fascículos para colecionar. Verdadeiros "Olhos
de Medusa" esvaziando o bolso do consumidor desavisado. Da mesma forma
e com a mesma isca, as já citadas "escolas" alardeam concursos (desde
viagens à divulgação de trabalhos em agendas) em vez de divulgarem uma
programação com currículo consistente de seus cursos.
Na fotografia e em outros trabalhos criativos, a ênfase dispensada incansavelmente
à intuição do artista pode ser um sinal perigoso de que não há argumentação
teórica para a prática artística. Cada passo dado na arte ou na indústria
é decorrente de uma ação planejada ou mesmo ocasional, mas que só evolui
quando bem pensada. A superficialidade com que vêm sendo ensinadas as
artes plásticas e visuais subentende o pouco caso com que são tratadas.
E assim vai rolando a bola de neve do "não pensar" e da busca pelo sucesso
imediato estimulada por essas instituições preocupadas, unicamente,
com a auto-promoção.
À primeira vista, a insensata frase do Bernuy pode parecer inofensiva.
Mas enquanto ela for lida e divulgada sem uma devida reflexão, vamos
continuar disputando um mercado (cada vez mais prostituido) com milhares
de profissionais incapacitados e aspirantes à fama que acabam aumentando
a legião de frustrados.
Soraya
Simões
fotógrafa | |