Graças à Mussolini, sou americano!
por Elliot Erwitt
este texto foi gentilmente traduzido por Daniela Milério

 

Meus pais deixaram à Russia depois da revolução. Me chamo ELIO ROMANO ERVITZ - Romano por uma lembrança do tempo em que meu pai estudou em Roma. Passei meu dez primeiros anos na Itália e por causa do fascismo fomos embora para a Califórnia. Meu pai era vendedor e fabricante de objetos elétricos para a marinha. Nós sempre vivemos modestamente. Nos anos 50, no Japão, meu pai se converteu ao Budismo quebrando uma tradição de nossa família. Meu avô materno era judeu, minha avó era uma ortodoxa russa que acabou morrendo de fome na França. Minha mãe, pela sua má sorte era rica na juventude. Nos Estados Unidos, sua última profissão foi de assistente de enfermagem, ela cuidava dos alcoólatras, dos doentes em fase terminal, durante esse período eu nunca a vi por um segundo se queixar.

Eu jamais tive da minha família qualquer influência artística. Na Itália, meu pai após se formar em Arquitetura, tentou exercer a profissão sem sucesso. Aos sessenta e cinco anos ele se tornou fotógrafo, me disse que queria seguir os passos do filho. Ele não era ruim. Meu filho mais velho é um ótimo fotógrafo. Somos, sem dúvida, os "loucos" da família.

 

Minha timidez me ajudou a ser fotógrafo. Consegui minha primeira máquina aos treze anos, era aquelas enormes com placas de vidro. Comecei a ganhar algum dinheiro aos quinze, em um laboratório. Minhas primeiras fotos foram de vedetes do cinema. Depois disso comprei uma ROLLEIFLEX, a maquina da moda e um projetor igual ao de FRITZ HENLE. Meu primeiro cliente foi meu dentista, depois algumas crianças, fachadas, festas de encerramento...

Um dia, folheando um livro, vi uma foto de uma estação de trem de um certo HENRI CARTIER-BRESSON, ela me consumiu. Eu nunca havia reagido à uma foto como aquela. Sua atmosfera, sua composição perfeita, sua naturalidade. Era uma cena comum, que qualquer um poderia fazer sem necessidade de modelos e "mise en scène", não precisava de nada especial, era somente uma maneira particular de ver as coisas e isso me pareceu interessante a seguir. Foi uma revelação! A magnífica foto de ATGET, do tocador de orgão e da pequena cantora, foi igualmente decisivo para mim. Ah! Teve também MODIGLIANI. Na verdade eu queria ser um MODIGLIANI. Tudo isso me ajudou muito a descobrir um caminho.

Deixei a Califórnia porque não acontecia nada de interessante por lá. Fui para Nova York onde encontrei STEICHEN - muito gentil e graças a ele, tive meu primeiro trabalho em publicidade, conheci também ROBERT CAPA, ele dirigia uma pequena agência, fundada por fotógrafos. Nesta época, eu estava entrando para o serviço militar. Fui, depois de algum tempo, servir em Paris onde me encontrei com CAPA novamente e lhe mostrei algumas fotos. A primeira vez que fui reconhecido como fotógrafo, ainda servia o exército, tinha sempre comigo uma LEICA. Fiz muitas fotos de soldados nas casernas. Nesta época o Jornal LIFE organizou um concurso que participei e venci com uma dessas fotos. Ganhei USD1.500, uma soma astronômica para a época. Meu comandante me escreveu uma carta de felicitação e o sargento, a partir daí, me tratou com respeito. Veja como uma foto pode mudar sua vida!

Ao sair do exército em 1953, conheci a equipe maravilhosa que CAPA havia montado na MAGNUM , sua agência. Minha primeira foto de um cachorro foi publicada em 1946, nem lembro quais as circunstâncias e nem que idéia usei. Mas o cachorro deveria ser muito engraçado.

Uma das primeiras séries sobre esse tema foi uma encomenda para o suplemento do domingo no New York Times. Era uma foto de moda para calçados de mulher, decidi fotografar do ponto de vista do cachorro - eles não são os que mais gostam de sapatos? 

Gostaria de fazer outros trabalhos de cachorro. Queria reunir os cachorros que fazem companhia às pessoas, que trabalham na segurança, na polícia, na agricultura... Quem sabe acontecerá? Se podemos fazer uma pessoa rir e chorar ao mesmo tempo, como é o caso de Charlie Chaplin, então chegamos à perfeição, não sei se é isso que procuro, tentar tocar quem olha minhas fotos, mas reconheço que é um desejo supremo.

Às vezes, o humor encontra-se dentro da fotografia, não dentro daquilo que se fotografou. Podemos fotografar a mais picante das situações e ter uma foto sem vida, onde nada se passa. Ao contrário, podemos fotografar nada, alguém limpando o nariz, e dar uma foto magnífica. Já ouvi comentários que algumas fotos minhas são tristes e outras engraçadas - TRISTES E ENGRAÇADAS, SERÁ QUE NÃO SÃO AS MESMAS COISAS ?

Na realidade dizer que existe humanismo nas minhas fotos é o maior elogio que poderiam me fazer. Se minhas fotos ajudam as pessoas a verem o mundo diferente, é sem dúvida ver as coisas sérias de uma maneira menos séria - TUDO É SÉRIO E NADA É SÉRIO !

Quando uma foto é boa sou de acordo mas quando ela muito boa, ela escapa à razão, é quase uma magia, nada com o que o fotógrafo vê ou deseja conscientemente. Quando a foto chega, ela vem facilmente como um presente, sem que se precise de análise. Como Napoleão dizia: "IREMOS, DEPOIS VEREMOS..."

A fotografia é uma profissão de preguiçoso, não se precisa de treinos, como músico, dançarino ou escritor. Precisamos somente ter um pequeno senso de composição e uma certa "finesse". A foto não é nada mais do que uma contemplação revelada sobre um click no preto e branco. Não gosto de fotos coloridas nos meus trabalhos pessoais. A cor é um domínio dos profissionais. Minha vida é muito complicada. Eu prefiro o P e B. Tenho uma crítica muito aguçada para trabalho de outros fotógrafos, o que não ocorre nos meus trabalhos. Há algum tempo atrás, resolvi acabar com uma fobia que eu tinha de não conseguir olhar fotos feitas por mim, porque sempre encontrava algum defeito e acabava odiando. Mudei isso. Acabei encontrando muito material bom. Pagaria para ver o que mudou. Eu ou as fotos!

Sempre tive uma simpatia pela América do Sul, as pessoas tem uma maneira própria de ser maravilhosa, há calor humano mesmo em momentos difíceis, nas suas formas duras usando máscaras de gentilezas e essa aparência para mim é muito conhecida, porque no momento em que estou fotografando tenho mais a ver com aparências do que com qualquer outra coisa. Levo sempre comigo uma máquina. Minhas fotos são como um jornal, uma grande parte da minha vida está lá. Elas me lembram muitas coisas agradáveis e outras tantas desagradáveis, de erros, de coisas que poderiam ser melhores e de amigos mortos e enterrados. Ao final de tudo, digo sempre: "Ano que vem, meu trabalho será melhor!"


Elliot Erwitt
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