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Há alguns anos, no enfoque
de uma exposição organizada por Alain d'Hoogue e intitulada "As barbatanas
e as lanternas", figuravam em torno de 30 imagens tomadas nas trincheiras
da primeira guerra mundial, com legendas, aparentemente científicas, comportando
números de identificação, datas, lugares, precisões, tais comos as que
aparecem nos documentos concernentes a guerra Iran-Iraque transmitidas
pelas grandes agências de fotografia. Nenhum dos visitantes desta exposição
de enganos fotograficos colocou em dúvida a autenticidade dos documentos
propostos. Eles somente se deram conta da mentira na última sala de exposição,
onde estavam explicadas as diferentes manipulações. Tanto isso é verdade,
que nem o pior crédulo é aquele que deseja acreditar.Para compreender
a aposta da leitura da imagem na era do virtual, devemos tentar saber
o que se passa quando lemos uma imagem fotográfica. Fora o fato que os
homens não leem as imagens da mesma maneira, na mesma ordem, é evidente
que as informações não se originam do interior da imagem, mas do
exterior. Quando olhamos uma fotografia, nosso olhar circula, no interior
de um quadro determinado pelo fotógrafo, que induz o exterior desse quadro,
à procura de formas que ele já conhece. Pode ser formas que ele já encontrou,
registrou e nomeou, na experiência prática, ou formas que ele já teve
algum contato em outras imagens que não são obrigatoriamente de natureza
fotográfica.
Essa leitura analógica somente trará informações parceladas mas ela se
combinará rapidamente com o conhecimento do observador que saberá assim
designar um personagem, um monumento, uma situação, etc. As únicas informações
precisas virão do texto acoplado à imagem. É do cruzamento de uma
imagem e de um texto que nascerá um discurso explícito, compreensível.
Esta situação confirma por oportuno que, contrariamente ao que se diz,
nós não vivemos na "civilização de imagem" mas sempre na civilização da
escrita. Nós vivemos um momento particular da sociedade do texto, na qual
as imagens são onipresentes e, em função da maioria daqueles que vivem
nessa sociedade não sabem interpretá-las, elas se tornam como uma grande
aposta de poder para aqueles que saberão controlar a produção e a distribuição.
Apenas isso.
Nesse contexto cultural muito particular, uma nova categoria de imagens
acaba de aparecer. São aquelas que chamamos de virtuais. A particularidade
dessa nova categoria é de não ter necessidade, para existir, de uma referência
pre existente no mundo palpável. Ao mesmo tempo, aproveitando de nossa
incredulidade em relação a imagem fotografica, essas imagens virtuais
se apresentam como totalmente comparaveis as que nos são familiares. Deixamo-nos
enganar quando, diante dos retratos de jovens realizados pelo artista
americano Keith Cottingham, percebemos que eles não tem nenhuma existência
real e que são o produto de milhares de horas de programação em um computador.
Seu realismo é apenas o resultado de nosso desejo de acreditar que a imagem
real é capaz da verdade. que ela é capaz de ser um traço do real. O fim
da pintura da história?
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