| |
Uma das
bandeiras da Photosynthesis é a eliminação do imposto de importação incidente
sobre equipamentos para fotografia e isto, embora seja uma reivindicação
entusiasmante de ser discutida, numa lista composta basicamente por fotógrafos,
é improvável que venha a ser concretizada.
Os motivos são simples de entender: pleitear a redução de impostos num
país que apresenta sucessivos déficits comercias é falar de corda em casa
de enforcado. Tirando fora os profissionais diretamente envolvidos com
fotografia, nosso desejo provavelmente será considerado supérfluo, porque
foto não seria artigo de primeira necessidade, pelo menos dentro da ótica
vigente aí nas ruas.
Preparando este texto, passei algumas horas percorrendo sites com informações
sobre comércio exterior e pude perceber o que é considerado artigo de
primeira necessidade para a nação e o que não é. Automóveis e peças importadas,
por exemplo, têm tratamento tributário especialíssimo. Indústria têxtil,
setor de máquinas e equipamentos pesados e até setor alimentício (aí incluindo-se
embalagens) recebem do governo federal incentivos não concedidos a outro
segmentos da economia.
Pode parecer risível mas não é: um artiguinho abrigado sob a rubrica 8436.80.00,
alimentador automático de ração para aves poedeiras em gaiolas, com
silo de armazenamento, arraçoamento, transporte por roscas sem fim e temporizador
programável, teve sua alíquota de importação reduzida a zero por ato
dos nossos preclaros legisladores, já que é inconcebível que nossas galinhas
sejam alimentadas com técnicas de Terceiro Mundo. Distribuir milho manualmente
nos cochos, atividade que certamente gera mais emprego do que um alimentador
automático, nos coloca na incômoda posição de sermos um país tecnológicamente
atrasado e, afinal de contas, qual daqueles gatos gordos de Brasília está
preocupado com emprego.
Saindo de galinhas e voltando para fotos, os fotógrafos brasileiros são
culpados também de não produzir um ceitil em divisas e aí reside a fragilidade
do nosso poder de barganha. Se fossemos exportadores de serviços ou de
arte fotográfica e isto trouxesse divisas ao Brasil, certamente seríamos
ouvidos de forma diferente pelos burocratas do Ministério da Indústria
e Comércio. Outra alternativa, mesmo sendo estéreis na produção de divisas,
é ter amigos bem situados no Planalto ou no Congresso Nacional, fato que
nossa esqualidez econômica também não nos permite.
Ainda no ramo das hipóteses, uma boa seria pagar - como fazem as duas
ou três multis que dominam o setor- um executivo para tratar de "relações
governamentais" que é o cargo formal que alguns malandros de empresas
malandras ocupam para fazer safadeza em Brasília. Pode parecer inverdade,
mas não é, as multis do setor de fotografia possuem executivos só para
fazer isto aí que meus nove leitores estão pensando.
Também me parece inútil argumentar que com melhores equipamentos e insumos,
por preços mais econômicos, o setor de fotografia brasileiro poderia se
aperfeiçoar e vir a competir no mercado internacional. Quando vejo aqui
um catálogo como o da Stock Market, fico imaginando qual o motivo que
leva nossos produtores gráficos a comprar fotografias de gringos, por
preços salgados, se podemos produzir trabalho semelhante a até melhor
com mão de obra nacional.
Nossa única chance, na minha criativa cabeça de osso para sopa, é que
o Presidente da República ou algum outro pai da pátria seja preso na alfândega
um dia desses, tentando trazer uma maquininha como muamba. Indignado,
sua excelência certamente vai ordenar aos ministros que revejam estas
escorchantes taxas de importação, que obrigam homens de bem como ele a
fazer o que nós, homens de mal, fazemos: contrabandeamos nossas máquinas
porque vivemos num país indecente.
|
|