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"As
pessoas não morrem, encantam"
A morte sempre foi motivo de curiosidade pra mim. Talvez pelo fato de meu pai ter morrido antes mesmo de eu nascer, não sei bem, fato é que gosto do tema e ao contrário de muitos não tenho medo dela. "As pessoas não morrem, elas encantam" dizia minha avó quando perguntava sobre o assunto. Conversas tidas com naturalidade a respeito da morte, cresci sabendo que morrer faz parte da vida. Tarde nublada todos enfurnados na redação sem nada para fazer (na época trabalhava na revista Caras). O então editor pede um carro e propõe a seus pupilos (eu e + 2), que passem 2horas fotografando no cemitério. Por que? Pelo fato de trabalharmos em um veículo onde a estética é rígida e definida, para tentar perder um pouco do olhar viciado que havíamos criado e desenvolver percepções próprias. Tentamos não ficar juntos para evitar que um influenciasse o outro. Enquanto eu subia em todos os túmulos, fotografava o enterro de um anônimo, era expulsa do cemitéro e entrava por outra porta, um dos colegas parecia imóvel diante do mar de túmulos do São João Batista. Eu estava completamente à vontade, tive minha curiosidade pela morte reascendida, uma curiosidade da infância: pra onde agente vai depois que morre? Pro cemitério. Mas será que só? Por outro lado esse tipo de lugar representa uma realidade exatamente oposta ao nosso cotidiano de Caras. Estava encantada com a situação, normalmente nós fotógrafos desse tipo de revistas somos super discriminados pelos colegas de outros veículos. Era a oportunidade que eu tinha para provar a mim mesma que podia fazer outra coisa senão fotos para revista. Durante dois anos passei a frequentar o São João Batista (Botafogo) e o Maruí (Niterói) pelo menos 4 vezes por mês. Eu estava fotografando o que eu queria da forma como queria: meu enquadramento, minha luz, o filme que eu escolhi, meus sentimentos e impressões. Por isso considero esse um trabalho pessoal e como todo trabalho pessoal não há interesse em agradar ou ofender ninguém.
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