Dejà vu elétrico
 

New York não é uma cidade. É uma catedral do culto ao dinheiro.

O desafio de fotografar New York é tentar o novo. Impossível.
É a cidade mais filmada, mais fotografada e mais vista do mundo. Sua lógica é o trabalho e sua força motriz é a dinâmica do capital, levando quem mora lá a incorporar um mau humor que já virou um comportamento típico da cidade: é como se todos se irritassem com mínima interferência no ritual pessoal de fazer dinheiro. Vencer é outra história.

É a cidade que mais espanta o visitante. Não há meio termo, não há espaço para reflexão. Na cidade-cenário cujo símbolo maior é o arranha céu, tudo é feito para os olhos e nada foi ou é natural. A cidade seduz com seus atrativos assim como o mágico faz uso de uma deliciosa assistente para desviar a atenção da platéia, para que todos caiam em seu truque de ilusão.

Manhattan tem outros nomes de ficção, como a Gotham City de Batman, a Metrópolis de Super Homem. Onde mais o Homem Aranha disporia de tantos prédios para escalar ? em que outra estátua os XMen brigariam ? o meteoro do filme Armageddon ? King Kong esteve lá duas vezes. Em 1948 Jules Dassin rodou o clássico noir Cidade Nua (Naked City) em locação com o seguinte slogan: ''filmado nas ruas de New York com um elenco de 8 milhões de New Yorkers !'' O roteiro ? traição, mulheres, bandidos e jóias.

E este é o truque maior da cidade-cenário, que não se envergonha de sua opulência, de criar atrativos a cada esquina... vista de cima, é inevitável a semelhança de uma linha de montagem fabril; vista de baixo, um colossal labirínto de concreto serpenteado entre as estruturas gigantes comuns em catedrais, basílicas e abadias , cujas perspectivas transformam os que lá se atrevem em meros coadjuvantes. Espaços religiosos são grandes porque querem acreditar que Deus habita naquele ambiente. Manhattan é grande porque o capital é grande. Tom Jobim disse que era uma cidade pra se ver deitado.

A ilha vive de romeiros que pensam ser turistas, que vêm confirmar se aquele cenário tem fundo.

Como todo cenário, a grande maçã é uma ilusão de espaço. A metrópole da consagração do art déco e do gótico ilude com suas luzes, meticulosamente construídas para que a contemplação atinja seu estado máximo de confirmação: o que eu ví na foto, no filme e na tv, EXISTE.

De novo voltamos à partner do ilusionista: qual a sua finalidade ? a sedução.
E o fiél entrega seus votos, seu dízimo em dólares, milhões deles, que a cidade cinicamente agradece se expondo em luzes, cores, concreto e impecável parafernália urbana.

Gente ? ocupada demais para ser fotografada, mau humorada demais para se permitir ser olhada pela câmera. O ser humano naquela metrópole visual é quase uma mera medida de escala. A engrenagem da máquina é o que menos interessa.

Tudo remete ao capital: o cromo do edificio Chrysler, a exclusiva Park avenue, as luzes da ponte do Brooklyn e a estátua da Liberdade, que saudava os novos trabalhadores.

Sim, você, eu, todos conhecem New York, a luz que você já sabe mas quer ver de perto, como a lâmpada que atrai o inseto.

 
André Arruda