| As
fotografias deste ensaio (nem sei se é um ensaio! Aliás, o que vem
a ser isso?) sobre São Paulo foram feitas com uma câmara 4 x 5 construída
por mim mesmo, inspirado nas câmaras HOBO existentes no mercado
americano.
HOBO é uma espécie
de andarilho, meio vagabundo, o cara que perdeu o emprego e vai
em todos os lugares levando sua própria trouxinha, enfim, um cara
que não tem teto, e que se abriga onde haja um que o acolha. E
foi exatamente este o fator que me atraiu, ou seja, andar por
aí com uma 4 x 5 leve na mão, fazendo fotos com muita qualidade
e selecionado ângulos e assuntos que me dissessem alguma coisa,
sem um roteiro preconcebido, e livre das limitações de movimento
e tempo que um equipamento de grande formato normalmente acarreta,
mas com a qualidade do mesmo.
Na cabeça, apenas
a intenção de captar o que acreditava corresponder ao arquétipo
da "paulicéia desvairada", no dizer de Mário de Andrade. Para
tanto, as fotos deveriam ser contemplativas, sinergizando expressividade,
informação e alta qualidade técnica. Não como cartões postais
que se vendem em aeroportos, que para mim são somente informativos,
embora não os despreze, dentro de sua finalidade. Além disso,
deveriam ser uma síntese do que aprendi em matéria de fotografia
até hoje. Por isso, escolhi a sintaxe do branco e preto, onde
me sinto bem à vontade, pois eu mesmo processo os negativos, de
acordo com minhas calibragens, usando tempos de revelação diferentes
para ajuste de contraste. Depois, escolho o papel, seleciono filtro
do contraste que acho adequado, amplio até ficar satisfeito com
os resultados, utilizando-me de proteções e queimadas localizadas
quando necessário, e selenizando as ampliações para exibição.
Estava me devendo este trabalho, há muitos anos.
Como se vê,
num só trabalho, procurei ajustar a técnica a uma necessidade
de ordem estético-expressiva. Na minha proposta não cabia realizar
o trabalho em 35 mm ou em formato médio, pois sei que não me satisfaria
plenamente. Por outro lado, sentia que sair na rua com uma 4 x
5 tipo Sinar e um tripezão, comprometido a arrumar toda a parafernália
uma vez em frente a um assunto, com a conseqüente perda de tempo,
chegada de curiosos e perguntas, etc., seria contraproducente.
Daí a solução da HOBO, que me pareceu exatamente o que estava
procurando. Não me enganei. É claro que a minha câmara de foco
fixo tem suas limitações, mas os benefícios conquistados superaram-nas
em muito. Usei um tripé leviano em algumas situações, mas tudo
chassis, fotômetro, câmara, tripé, filtro (um só, e de gelatina),
tripé, caderninho p/anotações, enfim, o essencial, - podia ser
levado numa sacola de fotógrafo comum, talvez um pouco maior,
com pouco peso e possibilitando plena liberdade de movimentos.
São Paulo é
uma cidade que reflete bem nossa cultura importada e nosso povo.
Ainda não aprendemos a respeitar e cultivar nossa própria história.
Refiro-me à massa dos brasileiros em geral, obviamente. Nossos
ícones vivem fustigados pelo descaso. Não há um só que não carregue
a marca do vandalismo. Também somos comodistas. Por exemplo. o
Largo São Francisco, um lugar tradicional, onde se situa a famosa
Faculdade de Direito, é um lugar imundo, com futum de urina, além
de perigoso. A Praça do Patriarca tinha um belíssimo piso de pedras
que formavam um desenho, uma espécie de rosácea. Recentemente
foi violentado para instalação de cabos subterrâneos. Simplesmente
tamparam o buraco deixado com uma laje e sequer se ocuparam em
refazer o desenho. Sem mencionar mendigos e moradores de rua que
infestam a cidade. Mas isso é um problema nacional, claro. Existe
um movimento chamado "Viva o Centro" não oficial, que, espero,
irá trazer algumas melhorias. Quero dizer ainda que meu trabalho
não tem previsão para terminar. São Paulo é muito grande. Portanto,
continuarei indefinida e descompromissadamente, quanto a horários
e prazos, a captar ângulos desta cidade, sempre com minha HOBO.
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