Porto Inseguro, manhã chuvosa de 22 de abril de 2000
por Adenor Gondim

  Cheguei a Porto Seguro às 7:30, tempo nublado, chovia incessantemente. Meu compromisso profissional era fotografar a inauguração do Centro de Convenções à noite. Resolvi ir à Coroa Vermelha para fotografar o encontro das nações indígenas, para arquivo e o que rolasse. Peguei um coletivo e lá vou eu. Tempo nublado a chuva fina insistia, a estrada cheia de barreiras policiais e lá vamos nós até que uma barreira de PMs barrou a passagem de qualquer veículo. Os que estavam engarrafados a partir do ônibus começaram a retornar. Do ônibus (+ - 300m ) víamos a barreira compacta de policiais e os clarões das bombas de gás lacrimogêneo, ouvíamos gritos. Pensei em me aproximar para fotografar. Contive-me. Chovia e eu não tinha a menor noção de espaço e do que concretamente estava acontecendo.

Fiquei no ônibus uns 20 minutos, até que a chuva passou e não se ouvia o pipocar das bombas. Os policiais em formação de corredor Polonês aguardavam ordem para voltar a carga. A contra gosto índios e negros e outros (políticos) foram obrigados a retornar à Coroa Vermelha. Fotógrafos e cinegrafistas aos montes, estavam agitados, revoltados e em busca das melhores imagens. Passamos pela barreira e pelo corredor policiais, que na sua maioria eram negros e morenos (O santo da Luciana - metro de NY baixou), com uma 28mm fotografei a passagem sem ver (acho que dá para salvar duas).

Depois que passamos a barreira, fiquei a deriva fotografando grupos de índios e não índios, revoltados com a violência dos PMs. Inesperadamente saí de um cercado um grupo de índios Kayapó, homens, mulheres e crianças cantando e marchando. Parecia um canto e marcha de guerra, duas índias cantavam e agitavam um pequeno facão no ar.

Comecei a fotografá-los, não pelo exotismo dos corpos pintados ou enfeites coloridos característicos dos Kayapó, mas pelo tom de revolta contido no canto e no passos firmes. Eles andavam muito rápido pelo acostamento e eu (gordo) tentava acompanhá-lo andando de costas entre o acostamento e o barro.

Cansado, pensei que já tinha um foto expressiva, mas mesmo assim decidi segui-los até onde fosse possível. Passei para o acostamento do lado oposto para acompanhá-los à distância. Ouvi um grito rouco e ao olhar vi a índia rasgando, cortando com o facão, as mãos, dentes, pés, com o corpo todo, o vestido que cobria seu corpo. Estava com duas câmeras, uma P&B, outra cor, sem tempo para escolha, comecei a fotografar, não vi a luz , não vi o que estava em volta, não "vi" nada, apenas senti e fotografei.

No meu caminhar, nunca vivi uma situação limite que me permitisse frieza para quem sabe enquadramentos melhores. As fotos falam e que cada um tire suas conclusões. Minutos depois voltei ao local para pegar o vestido. Estava todo rasgado cheio de cortes tinha cheiro de água e mata. Trouxe-o comigo.


Foi assim o dia 22 de abril de 2000, 500 anos depois - violência dobrada.

 
 
 
 
 

 


 


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