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Cheguei
a Porto Seguro às 7:30, tempo nublado, chovia incessantemente. Meu
compromisso profissional era fotografar a inauguração do Centro
de Convenções à noite. Resolvi ir à Coroa Vermelha para fotografar
o encontro das nações indígenas, para arquivo e o que rolasse. Peguei
um coletivo e lá vou eu. Tempo nublado a chuva fina insistia, a
estrada cheia de barreiras policiais e lá vamos nós até que uma
barreira de PMs barrou a passagem de qualquer veículo. Os que estavam
engarrafados a partir do ônibus começaram a retornar. Do ônibus
(+ - 300m ) víamos a barreira compacta de policiais e os clarões
das bombas de gás lacrimogêneo, ouvíamos gritos. Pensei em me aproximar
para fotografar. Contive-me. Chovia e eu não tinha a menor noção
de espaço e do que concretamente estava acontecendo.
Fiquei no ônibus
uns 20 minutos, até que a chuva passou e não se ouvia o pipocar
das bombas. Os policiais em formação de corredor Polonês aguardavam
ordem para voltar a carga. A contra gosto índios e negros e outros
(políticos) foram obrigados a retornar à Coroa Vermelha. Fotógrafos
e cinegrafistas aos montes, estavam agitados, revoltados e em
busca das melhores imagens. Passamos pela barreira e pelo corredor
policiais, que na sua maioria eram negros e morenos (O santo da
Luciana - metro de NY baixou), com uma 28mm fotografei a passagem
sem ver (acho que dá para salvar duas).
Depois que passamos
a barreira, fiquei a deriva fotografando grupos de índios e não
índios, revoltados com a violência dos PMs. Inesperadamente saí
de um cercado um grupo de índios Kayapó, homens, mulheres e crianças
cantando e marchando. Parecia um canto e marcha de guerra, duas
índias cantavam e agitavam um pequeno facão no ar.
Comecei a fotografá-los,
não pelo exotismo dos corpos pintados ou enfeites coloridos característicos
dos Kayapó, mas pelo tom de revolta contido no canto e no passos
firmes. Eles andavam muito rápido pelo acostamento e eu (gordo)
tentava acompanhá-lo andando de costas entre o acostamento e o
barro.
Cansado, pensei
que já tinha um foto expressiva, mas mesmo assim decidi segui-los
até onde fosse possível. Passei para o acostamento do lado oposto
para acompanhá-los à distância. Ouvi um grito rouco e ao olhar
vi a índia rasgando, cortando com o facão, as mãos, dentes, pés,
com o corpo todo, o vestido que cobria seu corpo. Estava com duas
câmeras, uma P&B, outra cor, sem tempo para escolha, comecei a
fotografar, não vi a luz , não vi o que estava em volta, não "vi"
nada, apenas senti e fotografei.
No meu caminhar,
nunca vivi uma situação limite que me permitisse frieza para quem
sabe enquadramentos melhores. As fotos falam e que cada um tire
suas conclusões. Minutos depois voltei ao local para pegar o vestido.
Estava todo rasgado cheio de cortes tinha cheiro de água e mata.
Trouxe-o comigo.
Foi assim o dia 22 de abril de 2000, 500 anos depois - violência
dobrada.
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