Andre Vilaron
 
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CORPO FECHADO

Do outro lado, no eco da palma, o corpo. O jogo do corpo extrai o som. No ritmo, a dança. E quem balança entoa:
- Boa noite pra quem é de boa noite! Bom dia pra quem é de bom dia!*

Difícil é saber se o arremate vem na voz de um caboclo de congada de Minas Gerais; na voz de Exu chegando a terra, em um candomblé em Duque de Caxias; ou pelo cavaleiro kalunga durante a folia de reis, em Goiás. Todos díspares em miudezas e pares em qualquer coisa. O corpo é fundamental nas tradições brasileiras das culturas iorubás ou ketu-nagô. De acordo com as interpretações sobre o tema, a ele caberia um conhecimento intuitivo, do ponto de vista do adivinhar em detrimento do saber. Ele seria dotado portanto, de uma forma pensante própria, que se anteciparia em potência motora, em intencionalidade. Nada demais então em se pensar na hipótese que também na fotografia possa estar atuando aí corporalidade além de atitude consciente. O reflexo necessário antecipado, para responder à realidade pontual. Da mesma forma, este ensaio exige um certo jeito de corpo, preparado para antecipar-se à foto e lidar com as peculiaridades do que se deseja fotografar: a pouca luz, o tempo arrastado, as restrições do ritual e o movimento inusitado do transe. Não é por acaso que a voz do caboclo na congada que grita o refrão, tenha resposta no tambor ancestral do candombe. Mais do que um tema, estas fotos têm o fotográfico como um corpo fechado em si mesmo.
Por Cinara Barbosa

* Canto de chegança em diversas manifestações populares do Brasil inclusive nos cultos de umbanda e candomblé quando aparece Exu.

 
Fotos:Andre Vilaron©
Reproduzido com permissão